A guerra que durou, de forma quase contínua, até 1815, e que transformou a Europa, reanimou na França o movimento revolucionário: a realeza foi a primeira vítima.
A Insurreição de 10 de Agosto de 1792
Contra a monarquia culpada de pactuar com o inimigo não apenas Paris, mas todo o país se levantou. A insurreição de 10 de agosto não foi obra unicamente do povo parisiense, porém do povo francês representado pelos federados; pode-se dizer mesmo que a " revolução de 10 de agosto de 1792" foi nacional.
O movimento patriota estava lançado, nada o podia deter mais. As seções parisienses que haviam formado um Comitê central permaneciam de prontidão. Os cidadãos passivos nelas se infiltraram, e entraram na guarda nacional, na qual um decreto de 30 de julho os admitira, finalmente. Nesse mesmo dia, a seção do Teatro Francês instituiu o sufrágio universal em sua assembléias-gerais. De quarenta e oito seções, quarenta e sete se pronunciaram, por fim, pela queda do rei. Nos Jacobinos, Robespierre assumiu a direção do movimento. Desde o 11 de julho, ele havia arengado aos federados: " cidadãos, viestes acaso para uma cerimônia vã, o renovamento da Federação de 14 de Julho ?
Sob sua inspiração, foram redigidas petições cada vez mais ameaçadoras, que os federados apresentaram à Assembléia, reclamando a 17 , depois a 23 de julho, a queda do rei. Quando viu os Girondinos negociar de novo com a Corte, Robespierre voltou aos ataques contra eles, denunciando, a 29 de julho, " a manobra entre a Corte e os intrigantes da Legislativas ", reclamando a dissolução imediata da Assembléia e sua substituição por uma Convenção que reformaria a Constituição. No dia 25 de julho, chegaram os federados bretões, os marselheses a 30, desfilaram no bairro de Santo Antônio entoando o hino que lhes tomou o nome. Sob o impulso de Robespierre, os federados formaram um diretoria secreta.
O manifesto de Brunswick, redigido em Coblence, divulgado em Paris a 1º de agosto, inflamou os patriotas. Desde os últimos dias de julho a atmosfera da Capital estava exaltada, proclamava-se nas ruas que a pátria estava em perigo, os alistamentos para o exército se faziam nas praças públicas, num cerimonial de austera grandeza. Na esperança de amedrontar os revolucionários, Maria Antonieta pedira aos soberanos inimigos uma declaração ameaçadora; um emigrado a redigiu, o Duque de Brunswick a assinou. O manifesto ameaçava de morte os guardas nacionais e os hesitantes que ousassem " defender-se " contra o invasor, ameaçava o povo parisiense, se ele fizess " o menos ultraje " à família real, de tirar " uma vingança exemplar e memorável, entregando a cidade de Paris a uma execução militar e a uma subversão total ". O manifesto de Brunswick teve efeito contrário ao esperado pela Corte: exasperou o povo.
A insurreição, que devia ser deflagrada no fim de julho, foi adiada até que a petição das seções parisienses pedindo a queda do rei fosse entregue à Assembléia Legislativa. A seção dos Trezentos, no bairro de Santo Antônio, deu à Assembléia o último prazo, 9 de agosto. A Assembléia dividiu-se naquele dia, sem se pronunciar. À noite, o toque soou. O bairro de Santo Antônio convidou as seções parisienses a enviar à Câmara Municipal comissários que se instalaram ao lado da Comuna legal, e em s, eeguida a substituiram. Isso foi a Comuna Insurrecional. Os bairros se levantaram e, se com seus federados, marcharam sobre as Tulherias, onde a guarda nacional desertou. Às 8 horas, apareceram, na vanguarda, os marselheses. Os suíços deixaram-nos entrar nos pátios do castelo e então fizeram fogo, repelindo-os. Quando os habitantes dos bairros chegaram, os federados, com a sua ajuda, retornaram a ofensiva e deram assalto. Cerca de dez horas, por ordem do rei, os sitiados cessaram fogo.
Desde os começos da insurreição, sob as instâncias de Roederer, procurador-geral síndico do departamento, comprado aos Girondinos, o rei com sua família deixara o castelo a fim de se colocar sob a guarda da Assembléia, que se reunia ao lado, na sala do Manège. Enquanto o combate mostrava-se duvidoso, a Assembléia tratou Luís XVI como rei. Quando a insurreição tornou-se vitoriosa, ela pronunciou não a queda, mas a suspensão do monarca, e votou a convocação de uma Convenção eleita pelo sufrágio universal, conforme havia proposto Robespierre.
O trono estava derrubado. Mas com ele soçobrava também o partido fueldense, isto é, a nobreza liberal e a alta burguesia que haviam contribuído para desencadear a Revolução, e em seguidatentado, comprometido com a Corte e empenhado em deter a insurreição, não saiu engradecido de uma vitória que não lhe pertencia. Os cidadãos passivos, ao contrário, artífices e lojistas, arrastados por Robespierre e pelos futuros Montanheses, entravam, com estardalhços, no cenário político.
A insurreição de 10 de agosto de 1792 revestiu-se de caráter nacional no pleno sentido do termo. Os federados dos departamentos, meridionais e bretões, tiveram papel preponderante na preparação e no desenvolvimento da jornada. Mais ainda, as barreiras sociais e políticas, que fragmentavam a nação, tombaram.
Convocou, em consequência, os cidadãos " aristocraticamente conhecidos sob a designação de cidadãos passivos " a prestar serviço na guarda nacional, a deliberar nas assembléias-gerais e, em breve, a repartir " o exército da porção de soberania que toca à nação ". A 30 de julho, a Assembléia Legislativa consagrou um estado de fato ao decretar a admissão dos passivos na guarda nacional.
Pelo sufrágio universal e o armamento dos cidadãos passivos, essa segunda revolução integrou o povo na nação e marcou o advento da democracia política. Ao mesmo tempo acentuava-se o caráter social da nova realidade nacional. Após tentativas vãs, os velhos partidários do compromisso com a aristocracia eliminaram-se a si mesmos: Dietrich tentou sublevar Estrasburgo, depois fugiu; a 19 de agosto de 1792 , La Fayette, abandonado pelas suas tropas, passou-se para os austríacos. E mais ainda: a entrada em cena da sans-culotterie alienou à nova realidade nacional uma fração da burguesia; já as resistências se afirmavam contra essa república democrática e popular que anunciava a segunda revolução de 10 de agosto.
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