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Os Monarcas da Dinastia de Bourgonha

Dom Afonso Henriques I " O Conquistador " ( 1139-1185 )

Primeiro rei de Portugal, filho do conde D. Henri de Bourgogne (Henrique de Borgonha) e de D. Teresa, filha de D. Alfonso VI de Leão. Ele nasceu na cidade de Guimarães em 1111 e morreu a 6 de Dezembro dee 1185. Foi fundador da monarquia portuguesa e da dinastia de Borgonba, que durou 244 anos. Até os 12 anos, esteve confiado aos cuidados do seu aio Egas Moniz. Aos 14, armou-se cavaleiro, por suas próprias mãos, na Sé de Zamora. Por morte de seu pai, tendo Afonso Henriques apenas 3 anos, D. Teresa ficara govemando o condado durante a sua menoridade, e esforçava-se por subtrair os seus Estados à suzerania de Leão, pensamento que estava de acôrdo com as tendências dos barões da região ao sul do rio Minho. D. Fenando Peres, conde de Trava, tomou-se o valido da rainha viúva, com desagrado de outros fidalgos. A disposição dos ânimos, irritados contra o predomínio de Fernando Peres, as instigações dos fidalgos, a exclusão em que o conservavam dos negócios públicos, excitavam Afonso Henriques a colocar-se à frente de um movimento revolucionário. Tinha amigos próprios, e a principal nobreza preferia vê-lo apossar-se do mando, a sofrer que os estranhos, e os partidários destes governassem por intervenção de D. Teresa. Segundo Herculano, as terras de Portugal, em que dominavam ou influíam os partidários de Afonso Henriques, deveriam ter começado a rebelar-se em princípios de 1127. Então, Alfonso VII, rei de Leão, que sucedera a seu pai, D. Alfonso VI, não desistindo do intento de conservar a suzerania sôbre o condado de Portugal, invadiu êste, cercando Guimarães. O jovem príncipe, cuja situação interna era delicada, não se achava em condições de sustentar um conflito externo. Os barões e cavaleiros, cercados em Guimarães pelo rei de Leão, declararam, em nome do moço Afonso, que êle se consideraria, de futuro, vassalo da corôa leonesa. Egas Moniz, poderoso fidalgo, ficou por fiador da promessa. O rei de Leão levantou o cêrco, e retirou-se para a Galiza. Parece que, nos primeiros mêses de 1128, a guerra civil, encetada no ano antecedente, recomeçou. No recontro do campo de S. Mamede, junto de Guimarães, foi desbaratada a facção de D. Teresa, e Afonso Henriques expulsou-a de Portugal, bem como ao conde de Trava. Felizmente para Afonso Henriques, Alfonso VII de Leão via-se a braços com várias dificuldades, o que permitiu a resistência do primeiro às pretensões de domínio do segundo. Entretanto, os muçulmanos operavam razias constantes no território portugalense. O castelo de Leiria fôra destruído (1137), e os cristãos derrotados em Tomar. Estas circunstâncias obrigaram Afonso Henriques a pedir pazes a seu primo. D. Alfonso VII. Acorreu ao Sul, e derrotou os sarracenos (comandados pelo governador de Santarém), numa batalha chamada de Ourique (25 de Julho de 1139), cuja localização e circunstâncias se prestam a discussões, e que os nossos historiógrafos dos séculos XVI e XVII avolumaram imensamente, entretecendo-a de pormenores fantasistas e considerando-a «a pedra angular da monarquia portuguesa», na frase de Herculano. Era ambição de D. Afonso Henriques a realeza, mas D. Alfonso VII recusava-se a reconhecê-lo como rei. As lutas com êste prosseguiram. Após o recontro de Valdevez, Alfonso VII mandou ao campo inimigo mensageiros que, em nome dêle, pedissem ao arcebispo de Braga que, por sua intervenção, se tratasse da paz. Ajustou-se uma suspenção de armas por alguns anos, até que depois, com mais sossêgo, se pudesse assentar uma paz definitiva e duradoura, o que poucos anos depois le realizou.

Em 1143, declarou-se o príncipe tributáire da Santa Sé, com o censo anual de quatro onças de ouro, e reclamou, em troca, a ptotecção pontifícia. O papa acedeu. Apesar disso, Alfonso VII, ao assinar depois, em Zamora, a paz com seu primo, não lhe reconheceu a realeza ; não protestou, porém, contra o título de rei, que êle tomava. O cardial Guido de Vico, provàvelmente como representante do pontífice, foi chamado a assistir à conferência dos dois príncipes, que, segundo parece, resolveram amigàvelmente as controvérsias que os tinham obrigado a demorar a conclusão da paz.

D. Afonso pensou, então, em alargar os seus domínios. Cingido ao Norte e a Leste pelo reino de Leão, a Oeste pelo oceano, Portugal só poderia ampliar-se para o Sul, à custa dos muçulmanos, por meio de uma luta intensa. A 15 de Março de 1147, tomou êle Santarém, por surpresa. Pouco depois (16 de Junho de 1147), surgia no Douro uma armada de cruzados germanicos, normandos, flamengos e inglêses. O bispo D. Pedro, que já tinha notícia da vinda daquela frota, recebera, na véspera, uma carta de Afonso Henriques, na qual lhe dizia que, se os cruzados aportassem ali, buscasse concluir com eles um acôrdo, para o servirem contra os sarracenos, dando tôdas as seguranças necessárias, e embarcando com êles para a foz do Tejo. Havia dez dias que o rei (sabendo, pela gente de cinco navios, que, corridos do tempo, tinham arribado préviamente às costas de Portugal, da vinda da frota que entraria no Douro) ajuntava fôrças para marchar sôbre Lisboa, resolvido a conceder aos cruzados quanto pudesse, para se valer do seu auxílio na tomada da cidade, A deliberação que finalmente se tomou foi a de aceitar a proposta. Unida de novo tôda a armada, seguiu a sua rota e subiu pelo Tejo no dia 29, enquanto Afonso Henriques marchava por terra, com as fôrças que pudera congregar. Pôs-se cêrco à cidade, que se rendeu a 23 de Outubro, depois de um duríssimo assédio. O efeito moral da conquista foi enorme. Tôda a região de aquém e de além do Tejo, perto da foz do rio, se submeteu imediatamente. Apesar do quási inacessivel da sua posição, o castelo de Sintra entregou-se antes de ser combatido, e as tropas que guarneciam o de Palmela desampararam-no.

Três anos depois, as dissenções entre os mouros davam origem a um pedido de intervenção a Afonso Henriques. Ibne Caci, senhor de Mértola e de Silves, indispôs-se com o rei de Marrocos, o qual encarregou os governadores fiéis de cooperarem nas operações contra o rebelde. lbne Caci, neste apuro, pediu a aliança de Afonso Henriques, e surge aqui a hipótese de que tivesse este organizado um exército (fins de 1150), o qual, unido às fôrças de Ibne Caci, vindas de Silves, teria derrotado os chefes mouros adversários de Ibne Caci, numa batalha a que conviria também, o nome de Ourique.

Durante os dezanove anos seguintes, até 1169, houve contínuas invasões na província de Alcácer do Sal. A cidade é que sempre resistia, caindo, por fim, na posse dos portugueses, em 1158 (24 de Junho), depois de sessenta dias de incessantes combates. Beja foi conquistada, em 30 de Novembro de 1162, por um corpo de burgueses ou de vilãos, dirigido por um certo Fernando Gonçalves, num ataque nocturno e repentino. Giraldo Giraldes, chamado o «Sem Pavor», toma Évora em 1166. O rei. invadindo o Alentejo, apodera-se, pela mesma época, de Moura, Serpa e Alconchel, além do Guadiana, e reedifica o castelo de Coruche, entre Évora e o Tejo.

O casamento que Fernando II, rei de Leão, celebrara com D. Urraca, filha do rei de Portugal (1165), pensando assegurar assim a aliança de Afonso Henriques, fôra insuficiente para alcançar esse objectivo. Os laços de família não haviam servido para criar um afecto mútuo nos ânimos do sôgro e do genro, e estabelecer uma paz duradoura entre os dois Estados. Quasi nunca deixara, pelo contrário, de haver entre êles discórdia, depois daquele casamento. Fôsse qual fôsse o verdadeiro motivo, o certo é que veio a rebentar uma guerra violenta entre os dois príncipes. Afonso Henriques preparou uma expedição contra Ciudad-Rodrigo, e ordenou que seu filho Sancho acompanhasse o exército enviado àquela conquista. Tinham os portugueses avançado com rapidez e já se achavam próximos da cidade, quando se encontraram com os leoneses. Travado o combate, num lugar chamado Arganal, viu-se Sancho obrigado a fugir. Afonso Henriques, irritado com o insucesso, invadiu a Galiza, assenhoreou-se da cidade de Tuy, do distrito de Toronho, até as margens do Lerez, do território de Limia, e mandou edificar um novo castelo, o de Cedofeita. Feito isso, retrocedeu para Portugal, e, na primavera de 1169, avançou para a conquista de Badajoz, que ainda estava nas mãos dos muçulmanos, mas cuja conquista devia acabar por pertencer a Femando II. Os sarracenos retiraram para a Kassba, depois de ocupada pelos portugueses grande parte da cidade, e sustentavam ali uma defesa que parecia inútil, quando as tropas de Leão, capitaneadas por D. Fernando II, vieram animar as suas esperanças. Afonso Henriques achou-se ao mesmo tempo, sitiador e sitiado, e, ao pretender retirar-se da cidade, quebrou uma perna no ferrôlho com que se fechava uma das portas. Os que o seguiam transportaram-no para um sítio próximo, onde perseguido pela cavalaria do genro, ficou prisioneiro (1169). D. Fernando tinha fama de homem de carácter generosíssimo, e perfeitamente demonstrou, neste lance, que a merecia. Confessando que fôra desleal a Deus e ao seu genro, Afonso Henriques oferecia entregar a êste, sem reserva, os próprios Estados, a trôco da liberdade. «restitue-me o que me tirastes - respondeu D. Fernando - e guarda o teu reino». Depois de dois mêses de cativeiro, D. Afonso I voltou aos seus Estados, mas irremediàvelmente impossibilitado para a sua vida militar.

Em 1171, Abu Yacub passava o estreiro de Gibraltar e vinha à Peninsula avivar a guerra contra os cristãos. Sem encontrar séria resistência, os seus generais atravessaram o Alentejo e vieram pôr cerco a Santarém, onde se achava Afonso Henriques. D. Fernando II correu em auxílio do sogro. Os sarracenos, colocados entre as fôrças de Portugal e as de Leão, entenderam conveniente retirar-se, e assim Santarém se salvou. Pode dizer-se que o reinado de D. Afonso Henriques, no que êle tem de pròpriamente histórico, acabou com os acontecimentos que o inibiram do exercício das armas.

O título de rei só lhe foi dado pela Santa Sé en 1179, aparecendo pela primeira vez na bula Relatum est, de 13 de Abril daquele ano, sendo pontífice Alexandre III. Afonso Henriques aumentara, de quatro onças de ouro para dois marcos, o censo anual que oferecera em 1144. Um presente de mil morabitinos (moeda de ouro, que se chamava também maravadi), que o rei de Portugal enviou ao Papa, passados dois anos, serviu de paga, afora o aumento do censo, pela concessão tanto tempo solicitada, sem resultado.

Entretanto, a guerra dos portugueses contra os sarracenos prosseguia. Mas estes encontravam, no infante D. Sancho, um duro adversário.

No meado de Maio de 1184. Yacub atravessou de novo o estreito com um poderoso exército, e veio pôr cêrco a Santarém (fins de Junho dêsse ano). O desacordo das narrativas que nos chegaram não nos permite uma idéia clara do que sucedeu. O certo é que o exército sarraceno, a certa altura, debandou, e que Yacub, um mês depois de iniciado o cêrco, faleceu em Sevilha, dos ferimentos recebidos (24 de Julho de 1184). «No longo crepúsculo de velhice aborrida e enfêrma - diz Herculano - o coração do valente Afonso I ainda pôde dilatar-se, pela última vez, nos contentamentos de uma grande vitória. A sua boa espada repousava havia muito na bainha, junto do seu leito de dor, mas consolá-lo-ia a certeza de que deixava um filho digno dêle no esfôrço e uma nação cheia de energia e de esperança, a qual lhe devia, quási inteiramente, a sua vida política». Veio, enfim. a falecer a 6 de Dezembro de 1185. Ordenara que o enterrassem no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Mais tarde, D. Manuel mandou-lhe levantar um rico mausoléu, em que ainda hoje se guardam os seus ossos.

D. Afonso Henriques fundou e dotou os mosteiros de Santa Cruz, de Coimbra, Santa Maria, de Alcobaça. S. João Baptista de Tarouca, e S. Vicente de Fora, de Lisboa, onde, por sua ordem, foram depositadas as relíquias daquele santo, transportadas do Algarve em 1173. Fundou duas ordens militares : a da Ala e a de S. Bento de Aviz (1161). Introduziu em Portugal os cavaleiros de Rodes, e começou a ponte de Coimbra.

Dom Sancho I " O Povoador " 1154-1212

Nascido em Coimbra, no dia 11 de Novembro de 1154, Dom Sancho I, veio morrer na mesma Coimbra no dia 27 de Março de 1212. Filho de Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal e de dona Mafalda de Saboia, ele começou desde à idade de catorze anos a familiarizar-se com o manejo das armas. Foi na realidade nessa época que ele participou numa expedição contra Ciudad Rodrigo. O encontro entre portugueses e castelhanos deu-se nos campos de Arganal, e diga-se em abono da verdade, ele foi desfavorável aos portugueses, que tiveram que fugir e proteger o seu príncipe. Mais tarde Dom Sancho I, expulsa os Mouros de parte da província do Alentejo, e consegue libertar Elvas. Podemos vê-lo, em 1184 em combate que vai permitir a conquista de Santarém aos Mouros. Três dias depois da morte do seu pai, Dom Sancho foi coroado em Coimbra. A conquista dos Algarves, que foi em parte ganha graças à ajuda de uma frota de cruzados flamengos e ingleses em 1189, foi de curta duração, porque esses territórios foram perdidos dois anos mais tarde. Podemos afirmar que este foi o facto mais importante do seu reinado. De jovem guerreiro, Dom Sancho, depois de sentir o peso da coroa na sua cabeça, transformou-se num homem ponderado preocupado acima de tudo com o bem estar do seu povo. Por isso certamente o chamaram de "Povoador". Foi ele na realidade que fundou vilas e conventos e que entre outros deu grandes privilégios ao de Alcobaça.

Dom Afonso II " O Gordo " 1185-1223

Terceiro rei de Portugal, filho de D. Sacho I e de D. Dulce, filha de Raimundo de Berenguer conde de Barcelona, D. Afonso nasceu em Coimbra em 1185 e morreu a 25 de Março de 1223. Foi aclamado, por falecimento de seu pai, em Março de 1212. Sancho I, aterrado e enfraquecido perante a morte, deixara um testamento que era bastante desfavorável à corôa, por demasiado generoso com o clero e com os infantes e infantas. Afonso II, porém precisava da Igreja, e, por isso, o primeiro acto importante do reinado foi a convocação de Côrtes em Coimbra onde se promulgou, como lei do reino, aquilo que Sancho I concedera ao clero como um privilégio, e ainda mais. Esta extrema condescendência do monarca para com os eclesiásticos não podia ser sincera, porque equivalia à condenação de factos do reinado anterior, em que êle próprio tomara parte, e porque era contrária aos interêsses da realeza. Significava, apenas, um adiamento do conflito com os eclesiásticos, imposto pela necesside de entrar imediatamente em um outro : o determinádo pelas clausulas do testamento, relativas a seus irmãos. Admitira êle, de má vontade, os amplos legados que Sancho I deixara aos outros filhos, não só aos legítimos mas ainda aos bastardos. Negou, pois, aos irmãos, até a parte pecuniária que lhes era destinada. Daí, o descontentamento dos infantes D. Pedro e D. Femando, que saíram do reino e foram oferecer os seus serviços, o primeiro, à côrte de Leão, segundo, à de França. Livre dos irmãos, tratou o soberano de ajustar as suas contas com as irmãs : D. Teresa, a quem ficara o senhorio de Montemor e Esgueira ; D. Sancha, a quem cabia o de Alenquer ; D. Mafalda, a quem pertencia o padroado dos mosteiros de Arouca, Bouças e Tuyas. D. Afonso II contestou o direito, em virtude do qual seu pai instituíra estes legados. D. Mafalda absteve-se de demandas e pleitos, cedendo os títulos à herança em favor da Ordem dos hospitaleiros, reservando para si o usufruto ; D. Teresa e D. Sancha, porém, sustentaram os seus direitos e invocaram o auxilio dos cavaleiros, já descontentes com o rei. A Ordem dos Hospitaleiros, representante de D. Mafalda, apelou para o papa. D. Afonso aceitou o juíz e enviou um agente para advogar a sua causa mas, como medida de precaução, foi-se apoderando das propriedades em litígio. Com os mosteiros não teve dificuldades, mas os castelos tomaram atitude hostil, e D. Afonso desistiu dos seus intentos, D Teresa e D. Sancha, senhoras dos seus castelos, responderam com altivez às pretensões do seu irmão, e viu-se êste obrigado a conformar-se com menos exigências, reclamando só o direito de nomear alcaides dos castelos, e deixando às infantas o usufruto dos rendimentos. As irmãs, porém, recusaram, e chamaram em seu auxílio os cavaleiros portugueses foragidos em Leão.

Por êsse tempo, D. Afonso II, como os demais reis cristãos da Península, era convidado por D. Alfonso VIII, de Castela, a auxiliar este reino na guerra contra os muçulmanos. O monarca acedeu e mandou em socorro o melhor do seu exército. O rei leonês Alfonso IX, recusando entrar nessa coligação, aproveitou a oportunidade para adquirir algumas terras.

Ao mesmo tempo os foragidos, que tinham tomado a defesa das infantas, pediram-lhe auxilio e derrotaram as poucas fôrças que lhes podia opor, agora, o rei de Portugal. Com a vitória das Navas de Tolosa, em que foram derrotados os muçulmanos, viu-se D. Alfonso IX obrigado a maior moderação, porque já então Portugal lhe podia resistir com as tropas vitoriosas. Por outro lado, D. Alfonso VIII de Castela não se mostrava bem disposto para com o parente, que o havia abandonado na hora do perigo. A luta de D. Afonso II com as irmãs ainda durou longo tempo. O papa decidiu que o domínio das terras ficaria pertencendo ao rei e os rendimentos às infantas. Para isso, foi preciso que Portugal pagasse 28 anos atrasados do censo em que D. Afonso I fizera o reino tributário de Roma, e que só se pagava quando os reis precisaram da Cúria. D. Afonso II era enérgico, mas não tinha o ardor guerreiro que seus pai avô sempre mostraram. Contra o costume da sua época, as suas tropas combateram sempre sem ver o rei à sua frente, a quem interessava mais consolidar e fortalecer o poder régio, do que conquistar territórios.

Em 1217, ajudados pela cruzada do rei da Hungria, ordenada por iniciativa do papa Honório III, pela expedição dos condes de Holanda e de Withe, que chegava a Lisboa, e pelos cavaleiros das Ordens militares, os quais acudiram ao chamamento dos bispos de Lisboa e de Évora, os portugueses puseram cêrco por mar e por terra a Alcácer do Sal, que os muçulmanos haviam retomado. A luta foi renhida, até que, ao cabo de dois meses, se rendeu a praça, a 18 de Outubto.

Afastado dêsses sucessos guerreiros, D. Afonso percorria, entretanto, o reino, fazendo confirmações, quere dizer, confirmando as doações feitas pelos reis seus antecessores, sem o que lhes não reconhecia validade. Êste princípio, estabelecido pelo rei e imposto, pela sua energia. aos altivos fidalgos, foi o mais rude golpe no feudalismo, tornando-o absolutamente impossível. Até então, D. Afonso precisara da Igreja, nas lutas contra as irmãs, agora, porém, já se achava menos dependente. Impunha a todos os súbditos, tivessem ou não imunidades eclesiásticas, a autoridade real. Exigia tributos do clero, obrigava-o a comparecer nos tribunais civis e lançava as bases do princípio de desamortização, proibindo que as igrejas e os mosteiros fôssem adquirindo novas tertas. O arcebispo de Braga fulminou D. Afonso com a excomunhão. A isto respondeu o rei ordenando aos seus guerreiros que devastassem as terras do arcebispo, e permitindo aos burgueses de Braga o apoderarem-se delas. O arcebispo fugiu para Roma, apelando para o papa, que excomungou o soberano, ameaçando-o de lhe tirar o trono e desobrigar os seus súbditos do juramento de fidelidade. Martim Sanches, bastardo de D. Sancho I, que estava ao serviço de Leão, governando os distritos de Totonho e Limia, fronteiros de Portugal, aproveitou as circunstâncias para invadir vitoriosamente a provincia do Minho. O rei de Leão apossou-se de Chaves, as infantas fizeram renascer as suas pretensões. Em pouco tempo, acendia-se por tôda a parte a guerra. Por essa época, começaram as suas prédicas de divulgação as ordens dominicanas e franciscanas, recentemente fundadas, com o fim de reformar os costumes monásticos, então já muito dissolutos. O clero e o povo fanatizado, viam-nas com maus olhos, mas D. Afonso permitiu a continuação dessas missões. Apesar de tantas complicações e dificuldades, D. Afonso ordenou em 1220, as inquirições sôbre os direitos tetritoriais injustificados, mas tolerados, para evitar males maiores, pelos dois monarcas precedentes.

Nos últimos tempos da sua vida, começaram as negociações com a côrte de Roma para se resolver a questão entre o rei e o arcebispo de Braga, mas estas não chegaram a concluir-se, em virtude do falecimento do soberano. Quási nas vésperas da sua morte, permitiu D. Afonso que o arcebispo voltasse pata o reino. O papa levantou-lhe as excomunhões.

Dom Sancho II " O Capelo " 1207-1248

Dom Sancho II que foi cognominado "O Capelo", nasceu no dia 8 de Setembro de 1207, em Coimbra, e morreu em Toledo no dia 3 de janeiro de1248. Dom Sancho que sucedeu a seu pai em 1223, teve um inicio de reino bastante calmo e cheio de boas iniciativas. Ele conquista aos Mouros algumas praças importantes no Alentejo e no Algarve e teve como preocupação principal, a boa gestão das finanças do reino. Todavia a situação mudou radicalmente. O rei começa um período de deboche ,abandona as suas funções de monarca a favoritos sem mérito, e apaixona-se perdidamente por uma mulher, que não merecia a consideração nem da corte nem do povo. Ela chamava-se Mencia Lopez de Haro, e era viuva de um tal Álvaro Peres de Castro. A nobreza que não via com bons olhos esta união pois sentia que o poder lhe fugia das mãos, aliou-se com os representantes da Igreja e a rebelião chegou mesmo ao pé do papa Gregório IX. O rei foi excomungado e o reino foi colocado sob interdição. Dom Sancho II, tentou salvar o seu trono e voltar atrás, principalmente na sua decisão de autorizar os judeus a ocupar postos na função pública. mas numa coisa ele não cedeu, foi no seu amor por Dona Mencia, com quem ele se tinha casado em segredo. Foi então que uma revolta explodiu no ano de 1244. Comandados pelos nobres o povo invadiu o palácio do rei em Coimbra, e apropriando-se da rainha, conduziram-na a Castela onde morreu. Este acto de violência não chegou para acalmar os revoltosos assim era a ambição, que os motivava. O objectivo era a deposição do rei Dom Sancho para colocar no trono o seu irmão Afonso, Conde de Bolonha. Com a cumplicidade do papa Inocêncio IV, eles conseguiram a publicação em 1245, de uma bula que ordenava aos portugueses o reconhecimento de Dom Afonso como regente do reino. Dom Sancho, diante desta situação, baixou os braços e encontrou refugio na cidade de Toledo, onde acabou os seus dias dedicando-se a obras de caridade.

Dom Afonso III " O Restaurador " 1210-1279

Quinto rei de Portugal, segundo filho de D. Afonso II e de D. Urraca. irmão de D. Sancho II. Ele nasceu em Coimbra a 5 de Maio de 1210, et morreu a 16 de Fevereiro de 1279. Arrancou a coroa ao irmão, fazendo-se regente, depois de o papa Inocêncio IV haver privado do govêrno a D. Sancho II. As desordens do reinado dêste monarca, que subira ao trono ainda menor, deram pretexto a tal procedimento. Quando chegou à idade viril, o infante D. Afonso partiu para França (1227), onde foi muito bem recebido por sua tia, a grande rainha D. Branca de Castela, irmã de sua mãe. Em 1238, casou ali com D. Matilde, condessa de Bolonha, viúva de Filipe, o «Crespo», ficando, por êsse facto, conde soberano, feudatário e vassalo de Luis IX, a quem acompanhou na guerra contra Henry (Henrique) III de Inglaterra, distinguindo-se na batalha de Saintes (1243). Enquanto combatia em França e administrava o condado de Bolonha, agravava-se a desordem em Portugal, bem como a hostilidade duma parte das classes privilegiadas contra o rei. Êste estado de coisas agradava sobremaneira a alguns membros do alto clero, e o bispo do Porto e o arcebispo de Braga, residentes em Leão, junto de Inocêncio IV aproveitaram-no com habilidade. Não se limitavam, já, a acusar o rei como fautor das violências de que sofriam (ou que êles alegavam) a Igreja e o povo. Acusavam-no também de totalmente incapaz para o govêrno. Era o primeiro passo para a deposição, que Inocêncio IV iria proclamar, inclusivamente para mostrar ao seu poderoso adversário, o imperador Friedrich (Frederico) II, quanto ainda poderiam ferir os raios fulminantes da Sé apostólica. No entanto, não bastaria isso se não aparecesse um homem que tivesse autoridade suficiente para se pôr à testa do partido adverso a D. Sancho II, e para dar execução, com a fôrça material, aos decretos da Cúria. Era êsse homem que os dois prelados tratavam de encontrar. Lembraram-se do infante D. Afonso, que, sendo ambicioso, fàcilmente se deixaria convencer. Entraram em negociações com êle, e nos fins de 1244, princípios de 1245, celebraram-se entre D. Afonso e os prelados, os preliminares do pacto, pelo qual o infante foi reconhecido, pelos seus cúmplices, como regente do reino, pacto que o papa sancionou, excomungando D. Sancho e depondo-o. Tudo favorecia e deposição do monarca. A boa vontade do pontífice em aceder aos desejos daqueles prelados ; as discórdias de Portugal, que haviam colocado, em hostilidade com a coroa, os chefes de algumas das principais famílias ; e as relações de parentesco que uniam alguns fidalgos, partidários de D. Afonso e residentes com êle em França, a muitos senhores, também de grande influência. D. Afonso precisava de um pretexto para vir a Portugal, pois não podia apresentar-se no país, acompanhado de um exército, sem motivo. Tratou o papa , de lhe proporcionar êsse pretexto, expedindo bulas em que o convidava à guerra santa. A esquadra que transportasse D. Afonso entraria em Lisboa, como em geral faziam tôdas as frotas de cruzados. O acaso ia transtornando êste estratagêma, porque Luiz IX preparou-se, a pertir, para a cruzada, e D. Afonso, como seu feudatário, via-se obrigado a acompanhá-lo. Ainda aqui lhe valeu o pontífice, expedindo nova bula, em que designava a Peninsula Ibérica, em luta com os sarracenos, como o campo onde deveria D. Afonso cumprir o seu voto. Esta nova orientação proporcionava à Santa Sé o ensejo de outorgar indulgências aos combatentes portugueses que se unissem a D. Afonso.

Encerrado o concílio de Lião, expediu o pontífice uma bula ao reino de Portugal, declarando que, dada a incapacidade do monarca, a anarquia do reino, os padecimentos da Igreja e do povo, êle, papa, incumbia o conde de Bologna do encargo do govêrno, para remediar os agravos que D. Sancho deixara cometer, e ordenava a todos os vassalos que obedecessem ao infante, como governador do reino ; outra bula era expedida ao infante, recomendando-lhe que partisse logo para Lisboa, a-fim-de cumprir a sentença pontifical. Antes, porém, da partida, o bispo do Pôrto, o de Coimbra e o arcebispo de Braga foram de propósito a Paris, onde então residia o infante, e aí lhe impuseram humilhantes condições, que êle, aceitou, sem hesitação. D. Afonso, a julgar pelo que depois se viu, reservava-se, in mente, o direito de as violar. Partiu finalmente para Lisboa, aonde chegou nos princípios de 1246, e onde logo se lhe vieram juntar muitos dos fidalgos seus partidários. A cidade de Lisboa declarou-se por êle e o mesmo fizeram outras terras, para o que não deixou de concorrer o dinheiro que D. Afonso encontrou no tesouro em Lisboa, e que empregou em comprar os alcaides de castelos e governadores de vilas e cidades. A guerra que se travou, entre os partidarios do conde de Bolonha (o qual tomara o título de «visitador e curador do reino») e os de D. Sancho II, não foi tão rápida e fácil como seria levado a supor pela exposição dos prelados ao pontífice, a qual apresentava todo o reino como indignado contra o soberano. As coisas caminhavam devagar. O território sujeito, espontâneamente, ao conde não passava do Sul do país, e, algumas vilas da Estremadura. Uma parte importante do clero e da nobreza dava apoio ou simpatia a D. Sancho, o qual, com o seu valido, Martim Gil, dominava ao Norte tudo ou quáse tudo, e opunha uma resistência tenaz. O possivel rapto da rainha, D. Mécia Lopes de Haro, contado pelo Nobiliário, prende-se talvez com os receios que tinha D. Afonso de que nascera algum filho legítimo do rei, pois que, não havendo sido proclamada a deposição dêste, passaria a coroa para seu filho, já que D. Afonso fôra só nomeado curador e regente. Diz-se que Raimundo Viegas de Portocarreiro, um dos irmãos do arcebispo de Braga, acompanhado, provàvelmente, de outros, entrara disfarçado em Coimbra de envolta com alguns esquadrões de homens de armas do valido, Martim Gil de Soverosa, e arrancara de ali, uma noite, a rainha, conduzindo-a à forte Vila Nova de Ourém. Debalde marchou D. Sancho a libertar sua mulher. As tropas do conde, já assenhoreadas do castelo, responderam com tiros às intimações do monarca, que teve de retirar-se. O rei pediu auxílio ao princípe de Castela (mais tarde Afonso X), e esperou que, por intervenção dêste, não promulgasse Inocêncio IV a bula de deposição. Com efeito, não era o papa insensível às repetidas instâncias do príncipe castelhano e já desconfiava do conde de Bolonha. Sancho, porém, nada conseguiu, e retirou-se, para Castela, acompanhado de alguns fiéis vassalos. Foi residir em Toledo, onde faleceu, em Janeiro de 1248.

D. Afonso foi então solenemente aclamado rei. A situação do reino era lamentável. As ruínas materiais : campos talados, casas arruinadas, castelos desmantelados, juntavam-se os destroços de ordem moral, com os ódios entre os que honradamente se haviam mantido fiéis a D. Sancho e os que se tinham vendido a D. Afonso. Agravava o mal o carácter do novo monarca, que era ambicioso, reservado, sem escrúpulos e vingativo, tão inclinado a enriquecer por todos os modos, mesmo os mais indecorosos, os seus validos, como a perseguir e vexar os que lhe eram desfavoráveis. Para fazer face às despesas e favorecer os amigos, vendeu terras da coroa e confiscou as que eram dos partidarios de D. Sancho. Entre os seus, foram imensamente favorecidos o chanceler Estêvão Anes e D. João Peres de Aboim.

A morte inesperada de D. Sancho deu, sùbitamente, a coroa, ao conde de Bolonha. Os que seguiram o vencido viram-se obrigados a pactuar com D. Afonso, ou a emigrar para o estrangeiro, para evitar a vingança. As relações com Castela não foram difíceis de regular, graças às boas disposições de Fernando III. Por influência dêste, seu filho, o futuro Afonso X, celebrou com Afonso III uma trégua de quarenta anos. Ao mesmo tempo, foi reconhecido a Portugal o domínio do Algarve. Até a morte de D. Femando (30 de Maio de 1252), permaneceu o Bolonhês no direito incontestado dessa província. Afonso X, porém, disputou-lho.

Sancho II formara o domínio português no Alentejo. As ordens militares haviam prosseguido as suas missões, e com freqüência salteavam, da extremidade daquela provincia, as terras muçulmanas do Algarve. Foi à Ordem de Sant'Iago, e em particular ao comendador de Alcácer, D. Paio Peres Correia, que esteve confiada, no tempo de D. Sancho II, a conquista e defesa do Alentejo meridional, serviço que o rei retribuiu com a doação de Aljustrel, Mértola, Ayamonte e Cacela. É de supor que, quando D. Afonso veio para Portugal, como governador, terminassem as operações da Ordem de Sant'Iago no Algarve, sendo o empreendimento confiado sobretudo à Ordem de Aviz ou Calatrava, e, particularmente, ao seu grão-mestre, Martim Fernandes. Nos anos de l 249 e l 250, sendo já rei, foi D. Afonso àquela região, mas, ao que parece, em curtas e pacificas visitas, nas quais encheu de bens os seus dois validos, Estêvão Anes e João Peres de Aboim.

Porém, Afonso X, como dissemos, uma vez rei (Maio de 1252) pretendeu a posse do Algarve. É de crer que a sorte das armas lhe não houvesse sido favorável, pois que a campanha terminou por um acôrdo, segundo o qual D. Afonso casaria com D. Beatriz, filha bastarda do castelhano (casamento que só se efectuou depois da morte de D. Matilde), não havendo, porém, testemunhas de absoluta confiança pelo que respeita ao Algarve. Os réditos da provincia ficariam para o castelllano por tôda a vida, enquanto o português, ao que parece, obtinha a propriedade do território. O certo é que o castelllano não exerceu, durante a sua vida, qualquer acto de verdadeira e imediata soberania na província.

Entretanto, explodia, entre D. Afonso III e o clero, uma luta inevitável. Não era o monarca homem para se resignar às condições que aceitara em Paris, sob a pressão das circunstâncias. Resolveu, com energia, uma questão que se levantara com o bispo do Pôrto, acêrca da cobrança dos direitos aduaneiros, condenando o bispo a uma indemnização. Em 1254, reuniu em Leiria côrtes, que foram as primeiras em que os concelllos se fizeram representar por legítimos procuradores. Desde os tempos dos Visigodos, as juntas, concílios ou parlamentos nacionais haviam sido exclusivamente compostos dos membros do alto clero e da principal nobreza ; o povo não intervinha em tais reuniões. Das côrtes de 1254, data o chamamento dos delegados municipais à assembléia política. A que se convocou em Leiria, nos fins de Fevereiro, estava já encerrada nos princípios de Abril. Essa curta prova foi aproveitada para administrar remédio às queixas de alguns concelllos, para revalidar os privilégios e liberdades de outros, e para confirmar doações ou em conceder reparações aos agravos de varios mosteiros. Assim, D. Afonso III, ao mesmo tempo que buscava satisfazer o povo, lisonjeava o clero com mostras de fervor. As severas providências tomadas anteriormente contra a Sé do Pôrto, num momento de irritação, e que virtualmente iam ferir o comércio do burgo episcopal, foram suprimidas, e, de acôrdo com o vigário daquela diocese (o qual, segundo parece, representava o bispo na ausência dêste), estabeleceram-se as condições que deviam regular a admissão dos géneros e mercadorias que viessem do Alto Douro ou entrassem pela foz do rio, ora no Pôrto, ora em Gaia, vila que, sujeita imediatamente à coroa, era a rival da povoação eclesiástica na margem fronteira. Parece que, também nesta conjuntura, se começou a realizar a ideia de promover a povoação do Alentejo.

Pouco depois, as goradas tentativas do rei para quebrar a moeda, e os solenes juramentos que a êsse respeito se viu obrigado a fazer, nas mãos do bispo de Évora, demonstram que o soherano ainda vergava debaixo das concessões feitas em Paris.

O aumento da prosperidade e da riqueza monetária do povo permitiu a Afonso III o substituir parcialmente os impostos em géneros por impostos em dinheiro. Novas inquirições gerais (1258), mais rigorosamente feitas que as de D. Afonso II, em 1220, permitiram a encorporação na coroa de muitos bens que haviam sido usurpados, e de uma mais eficaz arrecadação do imposto.

Em 1261, buscou novamente D. Afonso pôr em pratica a providência, já anteriormente tentada, da quebra da moeda (cunhar de novo a prata, acrescentando-lhe mais liga e dando-lhe curso com o mesmo valor nominal da antiga). Reuniram-se côrtes em Coimbra, em que se autorizou a fundição de dinheiro com valor nominal superior ao intrínseco, e o lançamento de um imposto destinado a resgatar a moeda em circulação. Se as côrtes de 1254 assinalam uma data importante na nossa história política, a da admissão dos concelllos aos parlamentos nacionais, as de 1261 ofereceram outra circunstância não menos importante : a de se reconhecer que o lançamento dum tributo geral, sôbre a propriedade, era, não direito do rei, mas concessão do país.

As providências tomadas entre 1258 e 1265 com o objectivo de proteger os colonos e os membros dos concelhos, súbditos imediatos da coroa, e a reconduzir os tributos ao seu legítimo destino, feriam a nobreza e os seus clientes ; porém, as que se promulgaram em 1265 continham gravíssimas provisões que abrangiam igualmente a mais poderosa das classes privilegiadas, a do clero regular e secular. O abuso, convertido pela sua longa existência em costume, era já considerado como um direito ; e as ordens do rei, ferindo muitíssimos interêsses, alterando muitíssimas situações, haviam de agitar todo o reino, e em especial, as províncias do Norte. As providências adoptadas para remediar as desordens que as inquirições patenteavam, deveriam ter sido a origem das lutas terríveis que D. Afonso III teve de sustentar, nos últimos anos do seu reinado. O clero, prejudicado nos seus interêsses (tinha não pequeno quinhão nas expoliações que exigiam tão ásperos remédios), reagiu violentamente. Dos nove prelados que presidiam às dioceses de Portugal, sete colocaram-se em plena hostilidade com Afonso III. Cinco, deixando pôsto interdito no reino, dirigiram-se à cúria pontifícia.

As discussões do monarca com a Santa Sé foram-se protelando, até que, a 4 de Setembro de 1275, era expedida a bula De regno Portugaliae, em que o papa ordenava ao rei que seguisse fielmente as estipulações de Paris, e desse ao clero tôdas as satisfações possíveis. Para cumprir estas ordens, dava-lhe o pontífice quatro meses, findos os quais seria o rei excomungado.

Essa excomunhão veio a efectuar-se, mas não teve sensíveis efeitos políticos. D. Afonso conservou-se firme, até que caíu doente. À hora da morte, aquela alma enérgica cedeu. Chamando à sua presença Durando de Évora, o único bispo que seguia a côrte, dois cónegos, vigários da diocese de Lisboa, e dois frades, o rei moribundo declarou solenemente, perante êles e perante os seus conselheiros e ministros, que, pôsto fôsse sua intenção, havia muito, dar o juramento de respeitar as imunidades eclesiásticas e obedecer aos mandatos apostólicos, ressalvando os direitos do reino e de seus filhos e vassalos, agora queria jurar, sem reservas nem condições. Um dos vigários de Lisboa tomou-lhe o juramento sôbre os Evangelhos, obrigando-se o infante D. Dinis, que assistia à cena, a cumprir as promessas que seu pai não pudesse efectivar.

Ocupava o sólio pontifício, em 1265, o papa Clemente IV, o qual, como todos os seus antecessores, não cessava de instar com Afonso X para que cumprisse a sua promessa de cruzada. Pareceu o monarca disposto a aceder a tais instâncias, com grande satisfação do pontífice, que o autorizou a levantar a décima de tôdas as rendas eclesiásticas, não só no seu reino, mas também em Portugal. Porém, a esta concessão singular impôs êle uma restrição : a de não poder Afonso X cobrar em Portugal a décima designada, no caso, ou de D. Afonso andar envôlto em guerra com os sarracenos, ou de se prontificar a auxiliar o sogro na cruzada que ia empreender. A primeira hipótese não se verificava. A segunda, estava em mão de D. Afonso III o realizá-la. Enviando socorros a Castela, tornava-se crèdor de uma dívida de reconhecimento. Para dar mais fôrça persuasiva ao seu proceder, enviou seu Filho D. Dinis, criança que não tinha ainda sete anos, a visitar o avô. O estratagema surtiu efeito. E assim, por actos sucessivos de generosidade, Afonso X cedeu ao neto, inteiramente, a província do Algarve.

Faleceu D. Afonso III a 16 de Fevereiro de 1279, sendo sepultado em Alcobaça. Alexandre Herculano, na História de Porlugal, resume assim o seu juizo sôbre êste monarca : «Embora, em relação ao clero, o seu procedimento, visto a certa luz, se possa taxar de ingrato, é certo que nos actos que deram origem a tantos agravos havia, de sua parte, um pensamento que o absolvia, a organizaçao da fazenda pública. Se, finalmente, uma ou outra vez, durante o seu govêmo, a opressão tomou o lugar da justiça, pelo que tocava aos povos, êles deviam perdoar êsses impulsos da tirania ao príncipe que abrira às municipalidades as portas das assembléias políticas do país, chamando-as, assim, a constituírem um dos corpos do Estado, e habilitando-as para pugnarem, colectivamente, a favor dos seus povos e liberdades».

Dom Pedro I " O Justiceiro/Cruel " 1320-1367

Foi em Coimbra, no dia 19 de Abril de 1320, que nasceu Dom Pedro, o primeiro com este nome que veio a ser rei de Portugal. A sua infância foi normal, mesmo sendo uma infância real. Aos 19 anos, casaram-no com uma princesa castelhana que tinha dezassete, e que se chamava, Constança. Deste casamento de conveniência entre as duas cortes, ia produzir-se o drama que consumiria a vida e o reinado deste pobre infante e mais tarde rei, Dom Pedro. Na comitiva feminina da sua mulher, vinha uma jovem chamada Inês de Castro, que fez tremer o coração do principe. Os dados do destino estavam lançados. Alguns dos grandes escritores, principalmente europeus intrepretaram o drama de Pedro e Inês. Deste amor impossivel, por razões de Estado, que a razão desconhece seu pai, o rei Dom Afonso IV, sob a influência, decerto, dos seus concelheiros, mandou acabar de uma vez por todas com esta história amorosa do seu filho. Inês foi assassinada, uma guerra civil entre pai e filho veio coroar o desespero de uma nação que não compreendia o que se estava a passar. Dona Inês de Castro, foi morta em 1355, mas três dos quatros filhos tidos com Dom Pedro Conseguiram escapar ao massacre. Dom Afonso IV, faleceu dois anos mais tarde, talvez arrependido do acto que tinha ordenado, mas obrigando no entanto o seu filho a jurar não se vingar sobre aqueles que tinham executado a ordem real. Mas as promessas e as juras só são importantes, na maioria dos casos, para aqueles que as querem ouvir. Na realidade, Dom Pedro vingou-se e vingou-se de tal maneira que ele passou à história como Pedro o Cruel ou Justiceiro. O resto foi macabro mas imponente. O rei exigiu que a sua corte prestasse uma ultima homenagem ao grande amor da sua vida. Para isso fez desenterrar o cadaver e houve no palàcio, beija mão e coroamento de rainha. Para precisar, Dona Contança a primeira mulher de Dom Pedro tinha morrido em 1345, seis anos apenas depois do casamento arranjado. O resto do reinado de Dom Pedro tem pouco que contar. Ele amou o seu povo, talvez como algum outro rei não foi capaz de o fazer. Entre as suas decisões aquele que pode surpreender mais, é a sua lei de punir o adultério, mas a diminuição dos impostos marcou em Portugal um momento de euforia. Dom Pedro morreu em Estremoz no dia 18 de Janeiro de 1367. Ele deixava para a história e para a vida um exemplo. Um amor quando verdadeiro é mais forte que uma coroa. Outros vão também seguir os seus passos, na história do mundo.

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