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A história dos espetáculos de massa patrocinados pelos romanos nos magníficos tempos da República Imperial prestou-se como exemplo vivo das possibilidades de manipulação das massas por parte das suas elites dirigentes. Tratou-se do célebre panem et circenses apregoado pelo poeta Juvenal como a melhor forma de manter o povo cordato aos olhos dos dirigentes. As terríveis cenas na arena do anfiteatro, onde gladiadores lutavam até a exaustão contra outros gladiadores ou contra feras terríveis, foram apontadas como prova da crueldade do conluio entre o patriciado e a plebe romana.
Como não se sentir horrorizado quando se lê nos registros
que os criminosos comuns, alguns prisioneiros de guerra e mártires
do cristianismo eram amarrados em postes à espera de serem devorados
por tigres, leões e leopardos; conservados antes, nos porões
do anfiteatro, em colossais vivarium e em jaulas, num jejum permanente?
Os festivais de matança
Não bastasse isso, havia as naumachiae, grandes batalhas navais
onde as tripulações eram constrangidas a lutar até
o fim. Inesquecível foi a patrocinada por Júlio César
em 46 a.C., quando mandou adaptar o Campo de Marte, transformando-o num
lago, para que o povo de Roma pudesse assistir ao entrechoque de uma pequena
frota egípcia com outra fenícia. Tão grande era a aceitação
das festivas de matanças, que os patrocinadores privados foram gradativamente
afastados e sua subvenção assumida diretamente pelo Estado.
E mesmo entre seus promotores observou-se uma nítida divisão
de tarefas: os ludi, inocentes jogos regulares, os espetáculos teatrais
e as corridas de carro ficaram nas mãos dos magistrados comuns, mas
as munera, brutais combates de gladiadores, foram tutelados pelo imperador:
estatizou-se a violência. Tamanha projeção adquiriram
no cenário de despolitização estratégica do
povo, que Trajano chegou a organizar um, no ano de 112, com 4 mil pares
de lutadores, que se estraçalharam em paria et catervatium, em duplas
ou em grupos, por 117 dias seguidos.
As possíveis motivações políticas
Parece-me, porém, que aquele ritual grotesco e desumano não
se deveu apenas ao desejo demagógico dos césares em agradar
ao vulgus, o populacho, que tanto naqueles tempos como nos de hoje sentem
enorme atração pelo bestial.Havia nas munera gladiatoria uma
intenção pedagógica: acostumar o povo, a massa romana,
à política dos césares, à política de
coerção e de repressão que o Império Romano
aplicava sobre os povos dominados. Tornavam a plebe cúmplice nas
atrocidades cometidas pelas legiões na conquista e na preservação
do império. O povo romano era, por meio dos espetáculos sangrentos,
treinado para uma tarefa que obviamente não poderia ser exercida
com piedade e com coração enternecido. Via-se na arena o que
os centuriões praticavam lá fora.
Os gladiadores de celulóide
Desta forma, quando o cidadão americano acompanha as reais façanhas
dos seus mariners pelo mundo, ou os bombardeamentos dos seus aviões
supersônicos, que lhe chegam em casa pelas imagens da televisão
(a matança à cores, via satélite), ele já não
se horroriza mais. A agressividade sangüinária dos seriados,
das séries policiais, do infernal Rambo, dos personagens de Schwartznegger,
de Bruce Lee, dos gladiadores de celulóide, já anestesiou
o público norte-americano o suficiente para causar-lhe algum tipo
de repulsa ou protesto.
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