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A Fuga do Rei

A fuga do rei constitui um dos fatos essenciais da Revolução. No plano interno, demonstrou a oposição inconciliável da realeza e da nação revolucionária; no plano externo, precipitou o conflito.

A fuga do rei ( 21 de junho de 1791) foi preparada com antecedência pelo Conde Axel de Fersen, um sueco amigo de Maria Antonieta. Sob o pretexto de proteger um tesouro enviado pelo correio ao exército de Bouillé, mudanças de posta e piquetes de cavalaria haviam sido dispostos ao longo da rota até além de Sainte-Menehould: através de Châlons-sur-Marne e da Argonne, Luís XVI devia alcançar Montmédy. A 20 de junho de 1791, cerca de meia-noite, Luís XVI, disfarçado de criado, deixou as Tulherias, com sua família. Na mesma ocasião, La Fayette inspecionava as postas do castelo, que considerou seguras; mas com antecedência ele havia deixado sem guardas uma porta das Tulherias, a fim de permitir a Fersen o livre acesso à residência da rainha.

Uma pesada berlinda fora construída a toda pressa, na qual a família real se amontoou; levava cinco horas de atraso. Por esse motivo, as postas colocadas, depois de Châlons, se retiraram. Quando o rei chegou, na noite de 21 para 22 de junho, em Varennes, não encontrou as postas previstas e deteve-se. Em Sainte-Menehould, porém, Luís XVI, que não se disfarçara bem, fora reconhecido pelo filho do dono de postas, Drouet; este último reteve a berlinda em Varennes e fez barricar a ponte sobre o Aire. Quando o rei quis seguir viagem, encontrou a ponte obstruída. O alarme soou, os camponeses amotinaram-se, os hussardos ocorreram e confraternizaram com o povo. No dia 22, pela manhão, a família real retomou o caminho de Paris, entre alas de guardas nacionais que haviam acorrido de todas as aldeias próximas. Bouillé, advertido, chegou duas horas após a partida do rei. A 25 de junho, de tarde, o rei entrava em Paris, em meio a um silêncio mortal, entre duas formações de soldados com os fuzis arriados. Esse foi o comboio da monarquia.

A proclamação redigida por Luís XVI antes da sua fuga, e dirigida aos franceses, não deixava qualquer dúvida a respeito de suas intenções. Ele pretendia insuflar as tropas de Bouillé, o exército austríaco dos Países-baixos, depois de retornar a Paris, dissolver a Assembléia e os clubes e restabelecer o poder absoluto. Toda a política secreta de Luís XVI tendia a provocar uma intervenção da Espanha e da Áustria, em seu favor. Desde outubro de 1789, enviara um agente secreto, o abade de Fonbrune, ao rei da Espanha, Carlos IV. aplicava o melhor dos seus esforços para agravar o conflito com os príncipes possessionados da Alsácia. Luís XVI não foi o homem simples e fraco, quase irresponsável, que nos é representado muitas vezes. Dotado de uma certa inteligência, dedicou-se, com obstinação, ao serviço de uma única meta: restabelecer a autoridade absoluta, mesmo ao preço de uma traição ao país.

Conseqüências internas de Varennes: a Fuzilada do Campo de Marte ( 17 de julho de 1791 )

As conseqüências internas de Varennes foram contraditórias: a fuga do rei propiciou o impulso do movimento popular e democrático, mas o receio que tinha do povo levou a burguesia reinante a reforçar seu poder e a manter a monarquia.

O movimento democrático apresentou-se mais forte do que nunca no dia que se seguiu a Varennes. " Eis-nos enfim livres e sem rei ", declararam os Cordeliers, que desde 21 de junho insistiam junto à Assembléia Constituinte na proclamação da República, ou, pelo menos, de não decidir a sorte do rei sem consulta às assembléias primárias. Ainda mais, a fuga do rei constitui um elemento decisivo ne reforço da consciência nacional entre as massas populares. Demonstrou a colusão da monarquia com o estrangeiro e suscitou até o mais profundo dos campos uma emoção intensa. Temeu-se a invasão , as praças das fronteiras se puseram espontaneamente em estado de defesa,a Assembléia tirou da guarda nacional 100.000 voluntários. O reflexo, tanto social quanto nacional, foi idêntico ao de 1789. quando em Varennes os hussardos que deviam proteger a fuga do rei aderiram ao povo, foi ao grito de Viva a nação! A reação defensiva se desencadeou. No dia 22 de junho, à tarde, perto deSainte-Menehould, o Conde de Dampierre, um senhor da região que fora saudar Luís XVI à sua passagem, foi massacrado pelos camponeses. No medo de 1791, o fervor nacional constituiu sem dúvidas um impulso quase tão poderoso quanto o ódio social. A fuga do rei era interpretada como prova de invasão iminente; as massas populares se mobilizaram na acepção militar da palavra.

A Burguesia constituinte conservou, porém, o sangue rio; receava a jacquerie tanto quanto os movimentos populares urbanos( a lei Le Chapelier fora votada a 14 de junho de 1791 ). A Assembléia suspendeu o rei e o veto, organizou a França em república de fato, mas barrou deliberadamente o caminho à democracia. Criou a ficção do rapto do rei.

A fuzilada do Campo de Marte manifestou as intenções estagnantes da burguesia. O povo de Paris, sublevado pelos Cordeliers e pelas sociedades fraternais, multiplicavam petições e manifestações. A 17 de julho de 1791, os Coldiers se reuniam no Campo de Marte para assinar sobre o altar da pátria uma petição republicana. Pretextando desordens,a Assembléia ordenou ao prefeito de Paris que dispersasse o ajuntamento. A lei marcial foi proclamada: a guarda nacional, exclusivamente burguesa, invadiu o Campo de Marte e fez fogo, sem intimação, sobre a massa desarmada, estendendo cinqüenta mortos. A repressão que se seguiu foi brutal: numerosas prisões, muitos jornais democratas pararam de circular, o Clube dos Coldiers fechado, o partido democrata decapitado por um momento.

A revisão da Constituição não foi mais longe do que teria desejado o Triunvirato, agora senhor da situação. Seu caráter censitário não foi menos agravado. Exigiu-se dos eleitores que fossem proprietários ou locatários de um bem estimado, segundo os casos , no valor de 150,200 ou 400 jornadas de trabalho. A guarda nacional foi definitivamente organizada pela lei de setembro seguinte: só os cidadãos ativos tinham o direito de integrá-la. Face a burguesia em armas, o povo estava desarmado. O rei aceitou a Constituição assim revisada, a 13 de setembro de 1791; no dia seguinte, jurou uma vez mais fidelidade à nação. A burguesia constituinte acreditou novamente estivesse a Revolução concluída.

Consequências Externas de Varennes: a Declaração de Pillnitz( 27 de agosto de 1791 )

As consequências externas de Varennes não foram menos consideráveis. A fuga do rei e sua prisão suscitaram na Europa grande emoção monárquica. " Que exemplo assustador ! " declarou o rei da Prússia. Mas, ainda uma vez, tudo dependia do imperador. De Mântua, Leopoldo propôs às Cortes unirem-se para salvar a família real e a monarquia francesa. Mas os cálculos e os interesses sobrepijavam o sentimento de solidariedade monárquica: o acordo europeu contra a França tornou-se impossível. A política dos Fueldenses tranqüilizou Leopoldo sobre a sorte de Luís XVI. Para disfarçar o recuo, o imperador contentou-se em assinar, conjuntamente com o rei da Prússia, Frederico Guilherme, a declaração de Pillnitz, a 27 de agosto de 1791, que não ameaçava propriamente os revolucionários com uma intervenção européia. Os dois soberanos se declaravam dispostos a " agir prontamente, de mútuo acordo, e com forças necessárias", mas com a condição de que as demais potências estivessem decididas a reunir seus esforços aos deles: então e nesse caso, a intervenção ocorreria. Na verdade, a declaração de Pillnitz foi tomada como aliás, seus verdadeiros autores desejavam, ao pé da letra pela opinião francesa. Essa ingerência estrangeira pareceu insuportável, a Revolução sentiu-se ameaçada: o sentimento nacional superexcitou-se.

A Assembléia Constituinte dissolveu-se a 30 de setembro de 1791, aos gritos de "Viva o rei! Viva a nação!". Seus dirigentes pensavam haver selado o acordo da realeza e da burguesia censitária, contra a reação aristocrática e contra a arremetida popular. Mas o rei não aceitara senão na aparencia a Constituição de 1791; a nação não se confundia exatamente com a burguesia, conforme o afirmavam os Constituintes. Quando a crise surgiu em Varennes, a Assembléia ordenou uma mobilização de 100.000 homens retirados da guarda nacional; afrontando as tropas de linha, as tropas reais, e recusando-se a buscar apoio no povo, a Assembléia tranqüilizava a nação, mas só a nação definida pela Constituição censitária. Os acontecimentos frustraram seus cálculos. após Pillnitz, a guerra parecia inevitável.

Face ao perigo, a burguesia devia, não sem reticências, fazer apelo ao povo. Mas este não pretendia, após haver destruído o privilégio do nascimento, suportar por mais tempo o do dinheiro. Reclamou, por isso, um lugar na nação: problema político e problema social se colocaram, desde então, em termos novos.


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