Universo Online
Web Sites Pessoais


Anúncio publicado pelo Soft Click

A Filosofia da Burguesia

O fundamento econômico da sociedade se modificava; as ideologias trasformavam-se ao mesmo tempo. As origens intelectuais da Revolução devem ser procuradas na filosofia que a burguesia elaborou depois do século XVII. Herdeiros do pensamento de Descartes, que revelou a possibilidade de dominar-se a Natureza pela ciência, os filósofos do século XVIII expuseram com clareza os princípios de uma ordem nova. Em oposição com o ideal autoritário e ascético da Igreja e do Estado no século XVII, o movimento filosófico exerceu sobre a inteligência francesa uma ação profunda, ao despertar e depois desenvolver-lhe o espírito crítico, fornecendo-lhe idéias novas. Os Liminares opuseram em todos os domínios o princípio da razão ao da autoridade e da tradição, quer se trate da ciência, crença, moral, ou organização política e social.

Na primeira metade do século XVIII, duas grandes correntes de pensamento se desenvolviam: uma de inspiração feudal, ilustrada por Montesquieu, na qual os Parlamentos e os privilegiados fundamentaram seus argumentos contra o despotismo; a outra, hostil ao clero, algumas vezes à própria religião, mas conservadora em política. Na segunda metade do século, se essas duas correntes subsistiam, idéias novas apareceram, mais democráticas, mais igualitárias. Do problema político do governo, os filósofos passavam agora ao problema social da propriedade. Os fisiocratas, não tinham um espírito conservador, contribuíram para essa nova orientação do pensamento do século, ao abordar a questão econômica. Se Voltaire, chefe inconteste do movimento filosófico depois de 1750 e até a sua morte, entendia proceder as reformas nos quadros da monarquia absoluta e dar o governo à burguesia endinheirada( Voltaire queria rebaixar os grandes, mas não queria de modo algum elevar o povo), Rousseau, saído do povo, exprimia o ideal político e social da pequena burguesia e do atesanato.

Para os fisiocratas, o Estado era constituído para garantir o direito de propriedade; as leis são verdades naturais, independentes do monarca, e que se impõe a ele." O poder legislativo não pode ser o de criar, mas o de declarar as leis " ( Dupont de Nemours ).Os fisiocratas exigiam um governo forte, mas no qual a força estivesse subordinada à defesa da propriedade; O Estado não devia ter outra função que não a repressiva. O movimento fisiocrático rematava, assim, uma política de classe, em benefício dos proprietários agrícolas.

Alma plebéia, Rousseau bravejou contra a corrente do século. Em seu primeiro discurso critica a civilazação de seu tempo e clama pelos deserdados: " O luxo sustenta cem pobres nas cidades e faz parecer cem mil nos campos ". Em seu décimo discurso investe contra a propriedade. No Contrato Social ( 1762 ), desenvolve a teoria da soberania popular. Enquanto Montesquieu reservava o poder à aristocracia, e Voltaire à alta burguesia, Rousseau aforriava os humildes e dava o poder a todo o povo. Apontou com papel do Estado reprimir os abusos da propriedade individual, manter o equilíbrio social pela legislação sobre a herança e pelo imposto progressivo. Essa tese igualitária, tanto no domínio social quanto no político, era coisa nova ao século XVIII, e opunha irremediavelmente Rousseau a Voltaire.

Essas diversas correntes de pensamento se desenvolveram desde o início, quase em liberdade completa.O movimento filosófico se ampliou, em seguida arrebatou todas as resistências, quando mudava a seu respeito a atitude das autoridades. Depois de 1770, a propaganda filosófica triunfou. Se os maiores escritores agora permaneciam calados e desapareciam pouco a pouco, escritores menores vulgarizavam as idéias novas que repercutiam em toda as camadas da burguesia e na França inteira. Obra capital da história do pensamento , A Enciclopédia foi concluída em 1772; moderada no domínio social e político, ela afirmava sua crença no progresso indefinido das ciências, elevava um monumento grandioso à razão.Se a produção filosófica afroxou sob o reinado de Luís XVI, formou-se, no entanto, uma espécie de síntese dos diversos sistemas: assim surgiu a doutrina revolucionária.

A liberdade é reivindicada em todos os domínios, das liberdades individuais à liberdade econômica; todas as grandes obras do século XVIII são consagradas aos problemas da liberdade. Um dos aspectos essenciais da ação dos filósofos, Voltaire em particular, foi a luta pela tolerância e pela liberdade dos cultos. O problema da igualdade foi mais controvertido. A maior parte dos filósofos não reclamava senão a igualdade civil perante a lei.. Voltaire, encara a desigualdade como eterna e fatal, Diderot distingue os privilégios justos, fundado sobre os serviços reais, dos privilégios injustos. Mas Rousseau introduziu no pensamento do sécilo as idéias igualitárias: reclama igualdade política para todos os cidadãos, assinala como papel do Estado o de manter um certo equilíbrio social.

Em qual medida essas idéias, que constituíam o fundo comum do pensamento filosófico, impregnaram as diversas camadas da Burguesia? a União de todas repousava na oposição à aristocracia. No século XVIII, os nobres queriam mais e mais reservar-se os privilégios e os benefícios a que a nobreza dava direito. Ora, com o progresso da riqueza e da cultura, as ambições da burguesia cresceram: no mesmo instante, ela vira todas as portas se fecharem diante de si. Não podia participar das grandes funções administrativas que se sentia mais apta a preencher do que os membros da nobreza. Era , muitas vezes, ferida em seu orgulho ou no seu amor-próprio. Todas essas mágoas da burguesia foram fortemente expressas por um gentil- homem, o Marquês de Bouíllé, em suas Mémoires, ou ainda por Mne Roland, que sentia nitidamente a superioridade de seu talento e da sua dignidade burguesa sobre as mulheres nobres.

Dois problemas se apresentavam essencialmente à burguesia: O problema político e o econômico.

O problema político consistia na partilha do poder. Após a metade do século, sobretudo depois de 1770, a opinião pública encarava com atenção redobrada os problemas políticos e sociais. Os temas da propaganda burguesa eram, evidentemente, os do movimento filosófico: crítica à monarquia de direito divino, ódio ao governo despótico, ataques contra a nobreza, contra seus privilégios, reivindicações de igualdade civil e de igualdade fiscal, admissão de todos os empregos, conforme o talento.

O problema econômico não interessava menos à burguesia. A alta burguesia tinha consciência de que o desenvolvimento do capitalismo exigia a transformação do Estado. O dízimo, a servidão, os direitos feudais, a má repartição de impostos, prejudicavam a agricultura e em consequência toda a atividade econômica. A supressão do direito de primogenitura e dos bens da mão morta poria bens em circulação. A burguesia de negócios desejava ainda a liberdade do trabalho e a liberdade de empresa. Os costumes jurídicos múltiplos, as aduanas interiores, a diversidade dos pesos e medidas atormentavam o comércio e impediam a criação de um mercado nacional. O Estado devia ser organizado segundo os mesmos princípios de ordem, de clareza, de unidade que a burguesia aplicava na gestão de seus próprios negócios. Por fim, o espírito de empresa do capitalismo exigia ainda a liberdade da procura no domínio científico: a burguesia reivindicava que o trabalho científico bem como a especulação filosófica fossem retirados da censura da Igreja e do Estado.

Não era unicamente o interesse que guiava a burguesia. Sem dúvida sua consciência de classe fora reforçada pelo exclusivismo da nobreza e pelo contraste entre sua ascensão econômica e intelectual e sua regressão civil. MAs consciente de sua pujança e de seu valor, tendo recebido dos filósofos uma certa concepção do mundo e uma cultura desinteressada, a burguesia não apenas julgava de seu interesse transformar o Velho Regime, como também achava justo fazê-lo. Estava persuadida de haver acordo entre seus interesses e a razão.

FASTbanner! - Clique Aqui!
Fastbanner!

voltar