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A situação da Assembléia Constituinte tornou-se cada vez mais difícil no curso de 1791; às desordens internas somavam-se com as dificuldades externas. A França nova e a Europa do velho regime se hostilizavam, como se hostilizavam a aristocracia feudal e a burguesia capitalista, o despotismo monárquico e o governo liberal. As rivalidades dos Estados desvio-lhes a atenção, por um momento, dos acontecimentos na França. Os emigrados e Luís XVI, ao fazerem apelo ao estrangeiro para restabelecer seu poder absoluto e sua primazia social, tornaram o conflito inevitável.
Contágio Revolucionário e Reação Aristocrática
A propaganda e a força de expansão das idéias revolucionárias inquietaram os reis estrangeiros, desde o início. Os acontecimentos da Revolução e os princípios de 1789 encerravam em si próprios um poder de irradiação bastante grande para agitar os povos e abalar o poder absoluto dos reis. Os acontecimentos da França excitaram por toda parte uma curiosidade insaciável. Os estrangeiros afluíram a Paris, autênticos peregrinos da liberdade: George Foster,de Mayence, o poeta inglês Wordsworth, o escritor russo Karamzine... Envolveram-se em lutas políticas, freqüentaram os clubes, tornaram-se propagandistas ativos das idéias da Revolução. Entre eles, os mais ardentes eram os refugiados políticos saboianos, belgas, suíços, renamos. Desde 1790, os refugiados suíços, genebreses e oriundos de Neufchâtel, em particular, formavam o Clube Helvético.
Além das fronteiras, o progresso das Luzes entre a burguesia ou a nobreza tornou a Alemanha e a Inglaterra particularmente sensíveis ao contágio revolucionário.
Na Alemanha, professores e escritores se entusiasmaram: em Mayence, Forster, bibliotecário da Universidade , em Hamburgo o poeta Klopstock, na Prússia os filósofos Kant e Fichte. O movimento ultrapassou os círculos estreitos dos intelectuais, ganhando a burguesia e a massa rural. Nos países do Reno, no Palatinado, os camponeses recusaram-se a pagar taxas senhoriais; agitações agrárias explodiram no Saxe, na região de Meissen. Em Hamburgo, o 14 de julho de 1790, foi celebrado pela burguesia, durante uma festa em que os assistentes conduziam fitas tricolores, um coro de moças entoou o advento da Liberdade, e Klopstock declamou sua ode Eles- e Não Nós:
Na Inglaterra , Fox, um dos chefes do partido whig, Wilberforce, adversário da escravatura, o filósofo Bentham, o químico Priestley, se declararam entusiasticamente em favor da Revolução. Se as classes dirigentes a aprovaram nos seus primórdios, retraíram-se à medida que os acontecimentos se preciptavam. Somente os radicais persistiram em sua simpatia, reclamando reformas para seu próprio país: em Manchester, uma Constituitional Society foi fundada em 1790, enquanto em 1791 era lançada a London Society for Promoting Constitutional Infomation. Os poetas continuaram por muito tempo fiéis ao seu entusiasmo dos primeiros dias: Blake e Burns, Wordsworth e Coleridge, que, em 1798, em sua ode França, devia recordar seu entusiasmo embriagador,
A reação européia não tardou, no entanto, a se manifestar. A aristocracia tornou-se contra-revolucionária após a abolição do regime feudal, o clero após a confiscação dos bens da Igreja; a burguesia espantou-se com as agitações que renasciam sem cessar. Os emigrados empenharam-se em drenar contra a França revolucionária as classes do velho regime. O Conde d'Artois instalara-se, desde 1789, em Turim; em 1790, os primeiros agrupamentos armados se constituíram nos domínios do eleitor de Tréves. Os emigrados pobres, mas altivos, punham os interesses de classe diante dos interesses da pátria, vangloriavam-se de submeter, com algumas tropas, Paris dominada por um punhado de agitadores. Na Alemanha, desde o início do ano de 1790, panfletários atacaram o movimento democrático francês, como na Gazzete littéraire, de Iena. Na Inglaterra, a aristocracia agrícola e a Igreja anglicana desfecharam a reação; nas eleições de 1790, a maioria tory foi reforçada, a reforma parlamentar adiada. Em novembro de 1790, Burke publicou suas Reflexões sobre a Revolução Francesa, que vieram a ser o evangelho da contra-revolução: " A Revolução Francesa era, aí condenada porque arruinara a aristocracia e destruíra a hierarquia de classes que resultava de instituição divina.". Thomas Paine, já célebre por haver tomado o partido dos insurretos da América, respondeu em 1791 com os seus Direitos do Homem, que alcançaram grande repercussão entre o povo. Burke lançou a idéia de uma cruzada contra-revolucionária( A atitude dos reis, malgrado sua hostilidade geral à Revolução, foi diversa. Catarina II da Rússia se inflamou, aparentemente, com a idéia da cruzada contra-revolucionária: " destruir a anarquia francesa é preparar-se para a glória imortal ). Pela mesma ocasião, na primavera de 1791, o Papa Pio VI condenava solenemente os princípios da Revolução Francesa; o governo espanhol, em março, estabelecia um cordão de tropas ao londo dos Pireneus, a fim de deter a peste francesa. A contra-revolução européia se afirmava, Luís XVI nela depositando todas as suas esperanças.