A crise da Sociedade
Na sociedade aristocrática do velho regime, o direito tradicional distinguia três ordens ou estados: o Clero, a Nobreza ( Ordens privilegiadas ) e o Terceiro Estado, que compreendia a imensa maioria da nação.
A origem das ordens remontava à Idade Média, onde se afirmava a distinção entre os que oravam, os que combatiam e os que trabalhavam para que os outro pudessem viver. A ordem do clero era a mais antiga; desde sua origem, teve uma condição particular regida pelo Direito Canônico. Mais tarde, configurou-se, entre os leigos, o grupo social da nobreza. Os que não eram nem clero nem nobres constituíam a categoria de " laboratores ' que deu origem ao terceiro Estado. Mas a formação dessa terceira ordem foi lenta. Sozinhos, figuraram nela, de início, os burgueses, isto é, os homens livres das cidades dotados de uma carta de franquias. Os plebeus do campo penetraram no Terceiro Estado ao participarem pela primeira vez, em 1484, da eleição de deputados daquela ordem. As ordens se consolidaram pouco a pouco e se impuseram a monarquia, de tal modo que a distinção entre elas resultou em lei fundamental do reino, consagrada pelo costume.
As ordens não constituíam classes sociais; cada uma delas se dividia em grupos mais ou menos antagônicas. Sobretudo a velha estrutura social fundada sobre o sistema feudal, sobre o desdém pelas atividades manuais e pelas ocupações práticas, já não estava em harmonia com a realidade.
A estrutura social da França do velho regime conservou o caráter de sua origem, da época em que a França começara a tomar forma, por volta dos séculos X e XI. A terra constituía então a única fonte de riqueza; os que a possuíam eram os senhores dos que a trabalhavam, e estes, seus servos. Desde então, numerosas transformações transtornaram essa ordem primitiva; o rei arrebatara dos senhores de terra seus direitos realengos, mas lhes deixara os privilégios sociais e econômicos, conservando-os, assim , no primeiro lugar da hierarquia social. O renascimento do comércio, a partir do século XI, e o desenvolvimento da produção artesanal haviam criado, no entanto, uma nova forma de riqueza, a riqueza mobiliária, e ao mesmo tempo uma nova classe social, a burguesia.
No fim do século XVIII, essa última estava á frente da produção; fornecia os quadros da administração monárquica e também os capitais necessários à marcha do Estado. A nobreza não desempenha senão um papel parasitário. A estrutura legal da sociedade não coincidia com as realidades sociais e econômicas.
Decadência da Aristocracia Feudal
A aristocracia constituía a classe privilegiada da sociedade do velho regime, compreendendo a nobreza e o alto clero. Se em 1789 a nobreza existia na qualidade de ordem, perdera, no entanto, após longo período, os atributos do poder público que detinha na Idade Média. Ao custo de um longo esforço, a monarquia capetiana recuperara o exército dos direitos realengos: cobrar imposto, recrutar soldados, cunhar moeda, fazer justiça. Após a Fronda, a nobreza vencida e em parte arruinada foi domesticada. Os nobres conservavam, contudo, o primeiro lugar na hierarquia social desde 1789; a nobreza constituía, depois do clero, a segunda ordem no Estado.
A aristocracia não se confundia exatamente com os privilegiados: os curas e os religiosos de origem plebéia não contavam. A aristocracia constituía essencialmente a nobreza. O clero constituía uma ordem privilegiada, divididas em dois ramos pela barreira social; segundo Sieyes, era, aliás, menos uma ordem do que uma profissão. Com efeito, o alto clero pertencia à aristocracia: bispos, abades, a maior parte dos cônegos, enquanto o baixo clero, istoé, os curas e vigários, quase todos plebeus, identificavam-se socialmente com o Terceiro Estado.
A Nobreza: Declínio e Reação
Os efetivos da nobreza podem ser avaliados em cerca de 350 mil pessoas, ou seja, 1,5% da população do país. Necessário ter em conta, ainda, as nuanças regionais: de acordo com os objetivos da tributação, ou com o número de eleitores nobres que participam de operações eleitorais em 1789, a proporção dos nobres nas cidades variava de mais de 2% a menos de 1%.
A nobreza formava a segunda ordem da monarquia, sendo, porém, a classe dominante da sociedade. Este termo mascarou-se, aliás, no fim do século XVIII, de elementos disparatados, de verdadeiras castas às vezes hostis umas às outras. Todos os nobres possuíam privilégios honoríficos, econômicos e fiscais: porte de espada, banco reservado na igreja, degolamento em caso de condenação à morte e não o enforcamento; sobretudo, isenção da taille, da corvéia nas estradas, do alojamento de guerreiros: direito de caça, monopólio de acesso aos graus superiores do exército, às dignidades da Igreja e aos altos cargos da magistraturas. Além disso, os nobres que possuíam feudo exerciam sobre os camponeses os direitos feudais. No total a nobreza detinha cerca de um quinto das terras do reino.
Unida apenas pelos seus privilégios, a nobreza limitava diversas categorias aos interesses muitas vezes opostos. A nobreza palaciana compreendia os nobres apresentados à corte, cerca de 4 mil pessoas que viviam em Versalhes, na roda social do rei. Tinha alto trem de vida, sustentada pelas pensões que lhe servia a prodigalidade real, os soldos militares, os lucros dos encargos do Palácio, as abadias em comenda, isto é, aquelas em que um eclesiástico secular ou um laico nomeado pelo rei recebia o terço do lucro, sem qualquer obrigação. A alta nobreza não estava em parte menos arruinada; seus lucros mais evidentes lhe permitiam manter a posição social. A alta nobreza se endividava, os casamentos com ricas herdeiras plebéias já não bastavam para tirá-la dos embaraços. A vida mundana, com efeito, aproximava, mais e mais, uma fração dessa nobreza, da alta finaça rendida às idéias filosóficas: assim era no salão de Mne d'Epinay. Por seus costumes , por suas idéias liberais, uma parte da alta nobreza começava a se desclassificar e isso numa época em que a hierarquia social se afigurava a mais rígida. esse grupo da nobreza liberal, cioso de seus privilégios sociais, era levado para o lado da alta burguesia com quem partilhava certos interesses econômicos.
A nobreza provincial tinha uma sorte menos brilhante. Os fidalgotes viviam com seus camponeses, quase sempre a mesma vida difícil.Muitos nobres da província vegetavam em suas mansões arruinadas, cada vez mais detestados pelos camponeses a quem insuflavam azedume com a exigência do pagamento dos direitos feudais. Assim se formou uma verdadeira plebe nobiliária que vivia curvada sobre sua miséria, odiada pelos camponeses, desprezada pelos grandes senhores , detestando, em troca, os nobres da corte,e a burguesias urbanas pela riqueza que suas atividades produtivas lhe permitiam acumular.
A nobreza judiciária constituiu-se depois que a monarquia desenvolvera seu aparelho administrativo e judiciário. Procedente do século XVI, da alta burguesia, essa nobreza burocrática ocupava ainda mais, no século XVII, uma posição intermediária entre a burguesia e a nobreza de espada.
A aristocracia feudal afigurava-se em decadência no fim do século XVIII. Não cessava de empobrecer, a nobreza da Corte se arruinando em Versalhes, a nobreza provincial vegetando sobre suas terras. Por conseguintes, exigia, cada vez com maior azedume, a aplicação de seus direitos tradicionais, à medida que se aproximava da ruína. Os últimos anos do Velho Regime foram marcados por uma violenta reação aristocrática. Politicamente, a aristocracia pretendia monopolizar todos os altos cargos do Estado e da Igreja, do exército ; em 1781, um edito do rei reservou os postos do exército apenas aos que fizessem prova de quatro quartos da nobreza. Economicamente, a aristocracia agravava o sistema senhorial.
Com efeito, a nobreza não constituía uma classe social homogênea, verdadeiramente consciente de seus interesses coletivos A monarquia era alvo da oposição tenaz da nobreza parlamentar, das críticas dos grandes senhores liberais, dos ataques dos fidalgos de província à margem das funções políticas ou administrativas e que sonhavam com um retorno a antiga Constituição do reino que não sabiam bem determinar. A nobreza da província, francamente reacionária, opuna-se ao absolutismo, a nobreza da Corte, esclarecida, tirava proveito dos abusos do regime, do qual reclamava a reorganização, sem que a abolição do mesmo lhe desfecharia o golpe de misericórdia. A classe dominante do Velho Regime não era mais unânime em defender o sistema que lhe garantia a preminência. Contra ela, todo o Terceiro Estado: os camponeses que se exasperavam ante o regime feudal, os burgueses aborrecidos com os privilégios fiscais e honoríficos, enfim, todo o Terceiro Estado unido em sua hostilidade comum ao privilégio aristocrático.
O Clero Dividido
O Clero, cerca de 120 mil pessoas, se proclamava " o primeiro corpo do reino ". Sendo a primeira das ordens do Estado, possuía importantes privilégios, políticos, judiciário e fiscais. Sua pujança econômica repousava na percepção do dízimo e na propriedade imóvel. A Propriedade imóvel do clero era ao mesmo tempo urbana e rural. Possuía ele numerosos imóveis nas cidades, dos quais recebia aluguéis que dobraram no curso do século.. Para o clero regular, a propriedade urbana se afigurava mais importante que a propriedade rural. Voltaire avaliou o lucro que o clero tirava de suas terras em 90 milhões de libras, Necker em 130 milhões( avaliação sem dúvida mais próxima da realidade ).
O clero regular ( de 20 a 25 mil religiosos e cerca de 40 mil religiosas ), se floresceu no século XVII, conheceu, no fim do século seguinte, uma decadência moral profunda e uma grande desordem. O decrédito do clero regular derivava, por uma parte, da importância de suas propriedades consideráveis, cujos lucros iam para os conventos despovoados e mais ainda para os abades comendatários ausentes. Os próprios prelados( título honorífico de dignatário eclesiástico ) mostravam-se severos com o clero regular.
O clero secular era vítima , ele também, de uma verdadeira crise. A vocação religiosa não repousava mais, como no passado, sobre o fundamento único da fé; a propaganda filosófica havia abalado a fé, após longa pregação. Em realidade, o clero, mesmo constituindo uma ordem e possuindo unidade espiritual, não formava um conjunto socialmente homogêneo. Em seus quadros, como no conjunto da sociedade do velho regime, se hostilizavam nobres e plebeus, baixo clero e alto clero, aristocracia e burguesia.
O alto clero ( Bispos , Abades e Cônegos ) era recrutado de quando em quando, exclusivamente na nobreza, pretendia defender seus privilégios dos quais o baixo clero era geralmente excluído. Não havia um só dos 139 bispos que não fosse nobre, em 1789.
O baixo clero ( 50 mil curas e vigários ) conhecia portanto, algumas dificuldades reais. Curas e Vigários Todos vindos da classe plebéia, não recebiam senão a porção mínima que lhes deixavam os beneficiários do décimo, . Cura e Vigários constituíam uma verdadeira plebe eclesiástica.