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Introdução
A região denominada Contestado abrangia cerca de 40.000 Km2 entre os atuais estados de Santa Catarina e Paraná, disputada por ambos, uma vez que até o início deste século a fronteira não havia sido demarcada. As cidades desta região foram palco de um dos mais importantes movimentos sociais do país.
A formação da Região
A região do interior de Santa Catarina e Paraná desenvolveu-se
muito lentamente a partir do século XVIII, como rota de tropeiros
que partiam do Rio Grande do Sul em direção à São
Paulo.
No século XIX algumas poucas cidades haviam se desenvolvido, principalmente
por grupos provenientes do Rio Grande, após a Guerra dos Farrapos,
dando origem a uma sociedade baseada no latifúndio, no apadrinhamento
e na violência. Após a Proclamação da República,
com a maior autonomia dos estados, desenvolveu-se o coronelismo, cada cidade
possuía seu chefe local, grande proprietário, que utilizava-se
de jagunços e agregados para manter e ampliar seus currais
eleitorais, influenciando a vida política estadual. Havia ainda
as disputas entre os coronéis, envolvendo as disputas por terras
ou pelo controle político no estado.
Em 1908 a empresa norte americana Brazil Railway Company recebeu do governo
federal uma faixa de terra de 30Km de largura, cortando os 4 estados do
sul do país, para a construção de uma ferrovia que
ligaria o Rio Grande do Sul a São Paulo e ao mesmo tempo, a outra
empresa coligada passaria a explorar e comercializar a madeira da região,
com o direito de revender as terras desapropriadas ao longo da ferrovia.
A Situação Social
Enquanto os latifundiários e as empresas norte americanas passaram a controlar a economia local, formou-se uma camada composta por trabalhadores braçais, caracterizada pela extrema pobreza, agravada ainda mais com o final da construção da ferrovia em 1910, elevando o nível de desemprego e de marginalidade social. Essa camada prendia-se cada vez mais ao mandonismo dos coronéis e da rígida estrutura fundiária, que não alimentava nenhuma perspectiva de alteração da situação vigente. Esses elementos, somados a ignorância, determinaram o desenvolvimento de grande religiosidade, misticismo e messianismo.
O Messianismo na Região
Os movimentos messiânicos são aqueles que se apegam a um líder religioso ou espiritual, um messias, que passa a ser considerado aquele que guia em direção à salvação. Os líderes messiânicos conquistam prestígio dando conselhos, ajudando necessitados e curando doentes, sem nenhuma pretensão material, identificando-se do ponto de vista sócio econômico com as camadas populares. Na região sul, a ação dos monges caracterizou o messianismo, sendo que o mais importante foi o monge João Maria, que teve importante presença no final do século passado, época da Revolução Federalista (1893-95).
Durante muitos anos apareceram e desapareceram diversos monges,
confundidos com o próprio João Maria. Em 1912 surgiu na cidade
de Campos Novos, no interior de Santa Catarina, o monge José Maria.
Aconselhando e curando doentes a fama do monge cresceu, a ponto
de receber a proteção de um dos mais importantes coronéis
da região, Francisco de Almeida. Vivendo em terras do coronel, o
monge recebia a visita de dezenas de pessoas diariamente, provenientes de
diversas cidades do interior. Proteger o monge passou a ser sinal de prestígio
político, por isso, a transferência de José Maria para
a cidade de Taquaruçu, em terras do coronel Henrique de Almeida,
agudizou as disputas políticas na região, levando seu adversário,
o coronel Francisco de Albuquerque, a alertar as autoridades estaduais sobre
o desenvolvimento de uma comunidade de fanáticos na região.
Durante sua estada em Taquaruçu, José Maria organizou uma
comunidade denominada Quadro Santo, liderada por um grupo chamado
Os Doze pares de França, numa alusão à
cavalaria de Carlos Magno na Idade Média, e posteriormente fundou
a Monarquia Celestial.
O Confronto (1912-16)
Ao iniciar a Segunda década do século, o país era
governado pelo Marechal Hermes da Fonseca, responsável pela Política
das Salvações, caracterizada pelas intervenções
político-militares em diversos estados do país, pretendendo
eliminar seus adversários políticos. Além da postura
autoritária e repressiva do Estado, encontramos outros elementos
contrários ao messianismo, como os interesses locais dos coronéis
e a postura da Igreja Católica no sentido de combater os líderes
fanáticos.
O primeiro conflito armado ocorreu na região de Irani, ao sul de
Palmas, quando foi morto José Maria, apesar de as tropas estaduais
terem sido derrotadas pelos caboclos. Os seguidores do monge, incluindo
alguns fazendeiros reorganizaram o Quadro Santo e a Monarquia
Celestial; acreditavam que o líder ressuscitaria e o misticismo expandiu-se
com grande rapidez. Os caboclos condenavam a república, associando-a
ao poder dos coronéis e ao poder da Brazil Railway.
No final de 1913 um novo ataque foi realizado, contando com tropas federais
e estaduais que, derrotadas, deixaram para trás armas e munição.
Em fevereiro do ano seguinte, mais de 700 soldados atacaram o arraial de
Taquaruçu, matando dezenas de pessoas. De março a maio outras
expedições foram realizadas, porém sem sucesso.
A organização das Irmandades continuou a se desenvolver e
os sertanejos passaram a Ter uma atitude mais ofensiva. Sua principal líder
era uma jovem de 15 anos, Maria Rosa, que dizia receber ordens de José
Maria. Em 1° de setembro foi lançado o Manifesto Monarquista
e a partir de então iniciou-se a Guerra Santa, caracterizada
por saques e invasões de propriedades e por um discurso que vinculava
pobreza e exploração à República.
A partir de dezembro de 1914 iniciou-se o ataque final, comandado pelo General
Setembrino de Carvalho, mandado do Rio de Janeiro a frente das tropas federais,
ampliada por soldados do Paraná e de Santa Catarina. O cerco à
região de Santa Maria determinou grande mortalidade causada pela
fome e pela epidemia de tifo, forçando parte dos sertanejos a renderem-se,
sendo que os redutos monarquistas foram sucessivamente arrasados.
O último líder do Contestado, Deodato Manuel Ramos
foi preso e condenado a 30 anos de prisão, tendo morrido em uma tentativa
de fuga.
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