ALBUERA
Em Maio de 1811. Massena, depois dos combates infelizes travados nas linhas de Tôrres, retirava em direcção à fronteira, perseguido pelas tropas de Wellington. As fôrças de Soult achavam-se em Badajoz, cuja praça haviam tomado.
Enquanto Wellington à frente de parte do exército aliado apressava a retirada dos invasores, Beresford tomou o caminho de Badajoz, para a reconquista dessa praça, cercando-a. Soult, tendo conhecimento do facto, veio da Andaluzia juntar-se ao quinto corpo do exército e marchou contra as tropas aliadas, que Beresford comandava em chefe.
Êste, sabendo dêste movimento do inimigo, levantou o cêrco a Badajoz, mandou para Elvas todo o material de sítio e foi postar-se em Albuera, para, assim, impedir ao marechal francês o abastecimento da praça. Juntaram-se, então, a Beresford, as tropas espanholas que andavam dispersas na Extremadura, e em 16 de Maio travou-se a batalha de Albuera, uma das mais sangrentas da Guerra Peninsular. Os franceses atacaram de manhã simulando um movimento sôbre a esquerda, Beresford, sem se iludir com a manobra, reforçou a sua ala direita com a divisão de Stewart. O nevoeiro que se levantou foi causa dum desastre sofrido por esta divisão e que poderia ter comprometido o êxito da batalha se Beresford não continuasse sempre a reforçar a ala direita. Assim, a brigada portuguesa, composta pelos regimentos 11 e 23 de infantaria, unindo-se aos restos da divisão de Stewart, conseguiu repelir e destroçar o inimigo, obrigando-o a retirar depois duma luta desesperada. Nesta batalha, Beresford foi salvo dum ataque pessoal dum lanceiro polaco pela sua ordenança, um dragão português que matou o cavaleiro.
Além da fôrça moral da vitória, não teve outras vantagens para os aliados a batalha de Albuera. Depois da vitória as tropas de Beresford voltaram a cercar Badajoz.
Na aldeia de Albuera existe um monumento singelo mandado levantar pelo govêrno espanhol, comemorando a vitória de 16 de Maio de 1811.
ALCÁCER QUIBIR
A batalha de Alcácer-Quihir, a 4 de Agôsto de 1578, foi a mais desastrosa que sofreram portugueses, pois como consequência fatal dessa derrota, em menos de dois anos, perdia Portugal a sua independência.
O exército de D. Sebastião saíu de Arzila às primeiras horas do dia 29 de Julho ; e, segundo os mais seguros calculos, não ia além de 16 500 combatentes : 14.900 infantes e 1.600 cavaleiros. (Os quatro terços portugueses, na sua maioria compostos de recrutas arrancados aos trabalhos agrícolas, compreendiam 8.000 homens. Dos 1.600 soldados do têrço castelhano era coronel D. Afonso de Aguilar. Flamengos e alemães subiam a 2.800, sob o comando de Martim de Borgonha, senhor de Tamberg. Os italianos, que não excediam a 600, tinham por coronel Tomaz Stukeley, marquês de Leinster. Havia ainda um têrço de 1.400 fidalgos, que, não possuindo meios de custear as despesas da jornada, voluntàriamente se tinham inscrito nesse esquadrão de aventureiros, devendo também combater a pé, e cujo comando era exercido por Álvaro Pires de Távora, com os sargentos-mores João Álvares de Azevedo e Pedro Lopes, antigo capitão da peonagem, em Tânger. Na infantaria se incluíam, finalmente, 200 arcabuzeiros tangerinos (condutores de gado), destríssimos no manejo da arma. A artilharia contava 36 peças. Na cavalaria. além dos 900 fidalgos vindos com o rei, entravam 400 fronteiros de Tânger. Completavam as fôrças de D. Sebastião os partidários de Mulei Mohâmede, o Xerife deposto : 250 a 300 de cavalo e cêrca de 300 arcabuzeiros.
À frente ia D. Duarte de Meneses, governador de Tânger, que D. Sebastião nomeara mestre de campo general. A seguir, a artilharia. Depois a infantaria, formada em duas colunas, cada uma dividida em três esquadrões : vanguarda, corpo de batalha e retaguarda. Os terços, tanto os portugueses, como os estrangeiros, deviam alternar-se diàriamente, nos diferentes lugares das colunas. Aos lados, a cavalaria : o rei, com o maior trôço, à direita ; à esquerda, o duque de Aveiro e Mulei Mohâmede. No centro, quási todos a cavalo, os eclesiásticos e a gente de justiça. Na retaguarda, além da bagagem, transportada em centenas de carros, 3.000 sapadores, mais de 1.000 boieiros e carreteiros, centenas de pagens, criados e lacaios, grande quantidade de escravos, muitas mulheres - dez a onze mil bôcas, que contribuiriam largamente para o gasto dos mantimentos.
A primeira jornada terminou num sítio chamado Os Moinhos, a uma légua de Azila, em linha recta. A boiada estava tão fraca, que à mais pequena subida tinha de ser ajudada a braço. No dia seguinte, chegou a expedição a Almenara. Em dois dias, marchara o exército apenas duas léguas, e faltavam quatro para alcançar Larache. Dos mantimentos já ia gasta quási metade. O exército estava, portanto, na iminência de morrer de fome.
Convocado o Conselho de oficiais, todos foram de parecer que se regressasse a Arzila. Os infantes embarcariarn na armada, que logo tomaria o rumo de Larache. A artilharia e os cavalos ficariarn na praça. Ainda de noite, partiu Afonso Correia, corn 40 cavaleiros, para avisar D. Diogo de Sousa. Entrou ern Arzila às prirneiras horas da manhã de 31, mas a armada partira na véspera.
Chegara nesse dia à vila o capitão espanhol Francisco de Aldana, por cuja vinda tanto instara D. Sebastião. Acompanhavam-no 500 soldados, sern arrnas ; e em Arzila não as havia. Quando Aldana soube que o rei mantinha a vontade de combater, dissee ao capitão da praça que a sua perdição
era certa. Voltaria para Espanha. Viera, porém, com êle, um fidalgo, D. Pedro del Mármol, que se entusiasmara por esta jornada. Observou-lhe que, trazendo uma carta do duque de Alba para o rei de Portugal, não devia retirar-se sem a entrega ; e como Afonso Correia se oferecesse para guia e escolta, partiu com a sua gente.
A notícia da saía da armada causou decepção no exército. Não a sentiu D. Sebastião, cujo íntimo desejo era continuar a marcha até encontrar o inirnigo ; e acolheu com alvoroço Francisco de Aldana pela sua prática de guerra. Os 500 soldados representariam um valioso auxílio, se na bagagem houvesse arcabuzes ou piques ; desarmados, só vinham agravar a escassez dos mantimentos.
Em 1 de Agôsto saiu o exército de Almenara ; nesse dia caminhou três léguas. Na manhã de 2, ficou resol vido tomar a direcção de Larache. Até às proximidades do rio Mocazim, o caminho para essa praça ou para Alcácer-Quibir era o mesmo, Pela tarde, descobriram os batedores na margem esquerda do Mocazim, junto à ponte de Alc1acer - assim chamavam os portugueses à ponte sôbre o Mocazim, na estrada entre Arzila e aquela cidade - quatro a cinco mil cavaleiros mouros. Queriam alguns fidalgos que se alterasse a direcção. A marcha continuou, porém, no mesmo sentid, e acamparam num sítio alto, denominado Sobreiral de Larache.
Murmuravam os mais exaltados por se não haver passado a ponte ; e D. Sebastião, cujo propósito era êsse, convocou o Conselho. Opinavam uns que a única solução era caminhar, sem detença, para Larache ; os mantimentos eram poucos e na armada havia-os com abundância. Alegavam outros que, abandonando o combate o exército português perderia a sua antiga reputação. Para Oeste, a terra era montuosa. Atravessado o rio, a margem esquerda abria-se em planície, e então se resolveria. Replicaram os primeiros : se a margem direita era acidentada, não devia atravessar-se o Mocazim, simples afluente do Luco, mas o próprio Luco ou rio de Larache, em cuja margem esquerda estava situada a povoação. Abaixo da confluência do Mocazim havia um vau, por aí devia passar o exército.
Noite ainda, mandou D. Sebastião sondar o vau. Em maré vazante, até a artilharia podia atravessar o rio. Não gostou o rei da informação. Falou sobre os inconvenientes da passagem, se o exército ficasse dividido em duas partes, e uma delas fôsse atacada pelos mouros, sem a outra lhe poder dar socorro. No dia seguinte, passaria o Mocazim, pela ponte de Alcácer.
No domingo, 3, muito cedo, puseram-se as fôrças em marcha. Não atravessaram a ponte, e foram descendo ao longo do rio até encontrarem um vau. Teria o exército andado meia légua, surgiram milhares de cavaleiros inimigos. As tropas suspenderam a marcha. Adiantaram-se alguns, com a intenção de escaramuçar. Ao seu encontro correram varios companheiros de Mulei Mohâmed, e iniciando uma conversação convieram puderam constactar a força do poderoso exército de Abde Almélique. Retiraram os mouros, que vinham apenas explorar, e D Sebastião incumbio o duque de Aveiro, com 300 homens de cavalo, de reconhecer bem as fôrças adversas. Voltou D. Jorge de Lencastre com informações análogas.
Retomou o exército a marcha, detendo-se numa boa posição, entre as aguas dos dois rios : o Mocazim e o Rur, seu afluente. Ao longo do primeiro, uma alta ribanceira constituía a mais segura defesa natural. O Rur é uma ribeira de curso intermitente, fàcilmente vadeável, representava, no entanto, uma linha de defesa. Os lados abertos foram guarnecidos com as carretas e carros de bagagem.
Nessa noite, o bispo de Coimbra e vários fidalgos pediram a D. Sehastião que se deixasse ficar naquele sítio, pois a defesa seria fácil, e não se arriscaria o exército, em campo aberto, ao primeiro embate de poder militar tão formidável. Mesmo o xerife deposto, lhe mandou pedir que não saísse do acampamento no dia seguinte. As tropas restaurariam as fôrças e, entretanto ocorreria a morte de Abde Almélique, cuja agonia estava próxima. Negou-se o rei a admitir estes pedidos. D. Duarte de Meneses pediu-lhe então licença licença para ir, com os cavaleiros de Tânger, dar uma encamisada aos mouros. O sobressalto e a desordem dos inimigos seriam enormes, pois se atemorizavam de noite fàcilmente. Recusou-lhe tamhém a permissâo.
O exército regular de Abde Almélique compreendia, pelo rnenos, 40.000 cavaleiros e oito a nove mil infantes armados de escopetas. Tinha também 26 peças, servidas por bons artilheiros. Constantemente informado das delongas da expedição, o Xerife, só no sábado, 2 de Agôsto, transferiu o seu acampamento para as proximidades de Alcácer-Quibir, mas ainda ao sul do Luco. Ao saber, porém, que D. Sebastião, em vez de se dirigir a Larache, transpusera o Mocazim, todo o exército passou o Luco, estabelecendo arraiais numa vasta campina, perfeitamente adequada às manobras da sua cavalaria.
No campo cristão, a ansiedade era enorme. Ao romper de alva, D. Sebastião reüniu o Conselho de ofíciais, a que assistiram também Mulei Mohâmede e os seus alcaides. Alguns fidalgos, dos que mais defendiam a emprêsa, pediram ao rei se mantivesse naquela posição até à noite. Depois retirariam para Larache. A artilharia ocultar-se-ia em escavações abertas para asse fim, e os carros da bagagem ficariam no lugar em que estavam, para iludir os mouros. Chegados à costa, a armada abastecê-los-ia, e ganhar-se-ia a fortaleza.
Increpou-os D. Sebastião, num violento acesso de cólera, por alvitrarem agota a retirada os mesmos que afirmavam a facilidade da vitória. Estavam convencidos, replicaram, de que os mouros, em vez de combater, se apressariam a seguir Mulei Mohâmede, como êle sempre afirmava ; mas agora reconheciam a inanidade dessa presunção, e que o Xerife dispunha dum enorme poder. Mulei Mohâmede interveio para propor o simples adiamento da batalha por um dia. Abde Almélique devia falecer em breve. A desordem seria imediata, e os alcaides abandonariam o campo, ou viriam para o seu lado. Retorquiu D. Sebastião que não queria triunfar de Abde Almélique morto. Voltou o deposto Xerife a insistir, que o combate se diferisse para a tarde, a horas em que o calor já não prejudicasse a actividade e a energia dos soldados.
Concordou o rei com o alvitre. Chegando, porém, a notícia ao capitao Aldana, o velho soldado correu a D. Sebastião, gritando-lhe «que se perdia, se não desse logo a batalha». A intervenção dêste homem estava de acôrdo com os seus secretos desejos. Ordenou imediatamente que as tropas marchassem contra o inimigo, e incumbiu Aldana de formar a infantaria. A cavalaria ficava a seu cargo.
A ordem de batalha do exército luso era a seguinte : a infantaria dividia-se em três corpos : vanguarda, centro e retaguarda. A vanguarda foi entregue aos soldados mais experientes ou destemidos. Ao meio, o têrço dos aventureiros ; à direita, o dos alemães ; à esquerda. parte do dos italianos e o têrço dos espanhóis. Todos estavam armados de piques. Por isso, cada grupo era guarnecido com mangas de arcabuzeiros. O têrço dos aventureiros com atiradores de Tânger, o dos alemães com arcabuzeiros italianos, o dos italianos e espanhóis com atiradores desta nacionalidade.
O centro era formado pelos terços de Vasco da Silveira e de Diogo Lopes de Sequeira, o primeiro atras dos alemães, o segundo atrás dos espanhóis e italianos. No espaço aberto entre êles e, portanto, atrás dos aventureiros, foram colocados os gastadores, a bagagem mais preciosa, a gente de serviço, os soldados castelhanos sem armamento, os religiosos, que não entravam na batalha, e as mulheres. A retaguarda era também constituída por dois terços : o de Francisco de Tavora e o de D. Miguel de Noronha. Fechando o espaço existente entre ambos, para amparo das bagagens e da multidão dos não combatentes, ficavam mangas de arcabuzeiros. A carriagem formava duas longas filas, paralelas e exteriores à infantaria.
A cavalaria portuguesa cindiu-se em três grupos : à esquerda, do lado de fora da carriagem, ficou o rei, com 600 cavaleiros. À direita, o duque de Aveiro, com cêrca de 300 ; e a seguir, mas separado por um intervalo, o mestre de campo general, com os homens de cavalo de Tânger, em número de 400. Na extrema direita, para além do quadrado constituído pelo exército cristão, colocou-se o antigo Xerife, com os seus partidários. A artilharia caminhava à frente, no enfiamento do têrço dos espanhóis ; cercava-a um pequeno trôço de gastadores.
A formatura do exército xerifiano era em crescente ou meia lua, com a infantaria no centro e a cavalaria nas alas. A ala direita. dirigida por Mulei Ahmede, irmão do Xerife, compunha-se de 1.000 escopeteiros a cavalo, e 10.000 cavaleiros armados de lança e adarga. A ala esquerda, sob o comando de Mohâmede Zarco, tinha 2.000 escopeteiros e 10.000 lanceiros.
A infantaria estava dividida em dois corpos : a vanguarda, formada pelos andaluzes e gazulas, em cuja valentia menos confiava Abde Almélique ; a retaguarda, constituída pelos elches, ou renegados, e os azuagos, soldados absolutamente seguros, que não só animariam, mas impediriam os outros de fugir. A meio, vinha o Xerife, sentado numa liteira, à frente da qual tremulavam antigas bandeiras dos seus antepassados. Ao fundo, cingindo a infantaria, talvez 16.000 cavalos, quasi todos pertencentes a tribos arabes (os alarves das Crónicas), na maioria ainda armados de bestas. A artilharia fôra colocada numa dobra do terreno, de maneira a enfiar de través o exército cristão, quando viesse caminhando.
Terminada a formatura, à frente das tropas, pronunciou D. Sebastião um discurso, exaltando a antiga coragem portuguesa, fiadora de grande vitória. Deram depois as trombetas o sinal de marcha ; e o rei determinou a todos os coronéis, ao duque de Aveiro, ao mestre de campo general e a Mulei Mohâmede, que ninguém entrasse em combate, sem ordem expressa sua.
Entre o acampamento cristão e o xerifiano havia uma pequena elevação. A seguir era a campina rasa, vulgarmente designada por campo de Alcáicer, com mais de duas léguas em redondo, onde se travou a célebre batalha, conhecida na história universal com o nome de Alcácer-Quibir. Esta povoação fica à distância de 15 quilómetros ; por isso, com mais propriedade, os mouros lhe chamam batalha do rio Mocazim ou dos Três Reis.
Logo que as trombetas portuguesas anunciaram a marcha do exército, o Xerife, a muito custo, montou a cavalo ; e réunidos os alcaides principais, proferiu breves palavras, prometendo elevadas recompensas a quantos se distinguissem na batalha. Começaram logo as fôrças xerifianas a avançar lentamente. A artilharia devia disparar, assim que os cristãos se encontrassem ao alcance de tiro.
Seriam 8 horas, puseram-se em movimento os dois exércitos. Volvida uma hora, o centro das tropas muçulmanas suspendeu a marcha. Avançavam os nossos confiadamente, quando se ouviram os primeiros tiros da artilharia xerifiana. Mataram apenas dois cavalos, mas o terror foi tamanho, nos terços do centro e da retaguarda, que muitos soldados se lançaram por terra. Segunda vez troou a artilharia inimiga, prostrando alguns aventureiros ; mas D. Sebastião, como alheado de tudo que o cercava, não se decidia a ordenar a investida.Novos pelouros abriram clareiras na vanguarda, e o rei continuava hesiatante. Em rápidos volteios, os escopeteiros mouros já verejavam com balas os têrços da frente, e D. Sebastinao permanecie irresoluto. Brados impacientes se ergueram de diversos lados. Os aventureiros eram talvez o s mais revoltados contra a sua perigosa inacção ; e, como a ordem demorasse, arrojaram-se sôbre a infantaria inimiga, que .vançava. Os espanhóis, alemães e italianos acompanharam-nos na arremetida. O rei, enão, desperta e, dando voz de «S. Jorge» aos que o rodeiam, atira-se arrebatadamente conta os cavaleiros de Mulei Ahmede.
«O têrço dos aventureiros - escreve o Sr. Professor Queiroz Veloso no livro D. Sebastião (1554-1578), - composto de homens decididos, especialmente as primeiras filas, apoiado nos arcabuzeiros de Tânger, investe com vigor. Os andaluzes e gazulas resistem, despejando as escopetas contra os assaltantes. O ímpeto dos aventureiros porém, não afrouxa ; e como os terços estrangeiros excitados pelo nosso exemplo - carregassem em tôda a frente, a vanguarda moura oscila e recua ; esboça-se, aqui e além, a retirada. Os aventureiros redobram de esforços. as cinco filas dianteiras avançam com tamanho ímpeto, que se destacam das restantes. Em desordem, os andaluzes voltam costas, numa fuga precipitada. Pungido da da mais viva indignação por êste acto de cobardia, Abbe Almélique ergue-se vacilante da liteira e monta a cavalo para ir ao encontro dos fugitivos. Êste violento gesto provoca-lhe uma síncope, caindo sôbre o pescoço do cavalo. Tomam-no os seus íntimos nos braços e deitam-no na liteira. Minutos depois falecia, sem haver recuperado os sentidos ; mas a guarda, corridas imediatamente as cortinas, a todos dizia que estava vivo
«A cólera de Abde Almélique não resultaria ùnicamente da pusilanimidade dos andaluzes. Também devia concorrer, poderosamente, para êsse desespêro, a debandada de centenas de cavaleiros da ala direita, comandada por seu irmão, que não podendo resistir à violenta carga do esquadrão real, abandonaram o campo com tão desabalada pressa, que alguns só pararam em Alcácer-quibir Esta retirada e a dos andaluzes estiveram, por momentos, a dar-nos a vitória
«Os aventureiros mais audazes conseguem apoderar-se de dois estandartes de Abde Almélique. Vêem-no descer do cavalo, convencidos de que um tiro de arcabuz tangerino o matara. Soltam-se lo gritos : "Vitória ! Vitória ! O maluco é morto !" Mas os elches e os azuagos, que formavam a retaguarda, acodem ràpidamente a preencher o lugar dos fugitivos ; uma bala fere então, numa perna, o capitão Álvaro Pires de Távora. O sargento-mor, Pedro Lopes, manda-o conduzir para uma das liteiras, que havia na bagagen ; e certamente, com receio de que a retirada se tornasse difícil, ordena que se detenham, dando a celebrada voz : "Ter! Ter !" O entusiasmo, que os impelia, esmorece. Hesitam, e quando decidem de retroceder, encontram-se cercados. O avanço que levavam aos seus companheiros, fôra ocupado pelos inimigos Os intrépidos aventureiros da vanguarda ficavam assim abandonados. o que se passou depois não foi um combate. Foi a inglória luta de três ou quatro centenas de bravos, vendendo cara a sua vida.»
O duque de Aveiro, D. Duarte de Meneses e Mulei Mohâmede lançam-se também na peleja ; mas como não há plano, nem direcção superior, cada um arremete ao acaso. D. Jorge de Lencastre, com insuperavel audácia, abre largas clareiras nos esquadrões de Mohâmede Zarco. Os cavaleiro, de Tânger avançam com tamanha energia sôbre a artilharia xerifiana, que a teriam conquistado se fôssem sustentados por infantaria. Mulei Mohâmede investe também várias vezes. Estes feitos isolados nenhuma vantagem traziam, porém, ao resultado da batalha.
A nossa artilharia, que nem tempo tivera para se colocar em posiçao, é atacada por centenas de inimigos. Corre D. Sebastião a liberta-la, e, num combate renhidíssimo, consegue repelir os assaltantes, à custa de muitas vidas. Mas a bateria ficou perdida, porque os artilheiros, sem guarda que os defendesse, estavam mortos ou foragidos. Chega então ao rei a notícia dum furioso ataque à bagagem. Para lá corre à desfilada, à frente de duzentos cavaleiros - a estes se reduzia o esquadrão real - e desbarata alguns milhares de mouros, entretidos na rapina. Foi, porém, impossível reconstituir os terços de Vasco da Silveira e de D. Miguel de Noronha. Gente arrancada aos serviços agrícolas, sem a mínima instrução militar, escondera-se, cheia de terror, debaixo das carretas.
A vanguarda continuava a ser incessantemente alvejada pelos elches e pelos azuagos. As filas dos aventureiros, como as dos terços estranhos, vão rareando. A infantaria moura já se não expõe ao perigo dum combate corpo-a-corpo. Os escopeteiros a cavalo, como os nossos já não tinham mangas de atiradores a defendê-los, avançavam até à distância de tiro, despejavam as suas escopetas, e quando os piqueiros corriam sôbre êles, viravam ràpidamente, para voltar depois, com as armas novamente carregadas.
Diversos fidalgos pedem ao rei que se retire. Vencer era impossível, mas fácil ainda salvar-se pelo caminho de Arzila. D. Sebastião recusa. Atraidos pelo estandarte real, centenas de mouros de cavalo acometem-no de todos os lados. Fernando Mascarenhas pregunta-lhe : "E agora, Senhor, que havemos de fazer com tanta multidão ?" - "Fazer o que eu faço", responde o rei ; e, com o costumado ímpeto, rompe os inimigos, derrubando os mais próximos.
Na retaguarda, o têrço de Diogo Lopes de Sequeira abandonara também os piques. Só o têrço de Francisco de Távora combatia com uma coragem que honrava os soldados algarvios, em grande número alistados voluntàriamente. A morte do seu heróico coronel deprimiu-lhes, porém, o ânimo e renderam-se.
Depois de quatro horas de luta, terminara a batalha. Apenas D. Sebastião e um pequeno grupo de fidalgos seguiam combatendo. Nem a bandeira, nem o guião real, chamavam já a atenção dos mouros sôbre o monarca ; e talvez a esta circunstância devesse não ter sido ainda morto. Mas era um fim previsto. Cristóvão de Távora suplica-lhe que se renda. D. João de Portugal acrescenta : "Que pode haver aqui que fazer, senão morrermos todos ?" Respondeu D. Sebastião: "Morrer, sim, mas devagar". D. Nuno Mascarenhas chegou a arvorar um lenço, na ponta da lança ou da espada. D. Sebastião, porém, não se rendeu ; e travando-se combate, foram mortos o conde de Vimioso, Cristóvão de Távora e alguns fronteiros de Tânger. Os restantes ficaram prisioneiros. Mais adiante, foi o soberano português cercado dum grupo de alarves que o mataram, com profundos golpes na cabeça e algumas arcabuzadas no tronco.
Mulei Mohâmede pretendeu salvar-se, atravessando o Mocazim. A maré começava, porém, a descer ràpidamente. O cavalo meteu uma das patas pela rédea e voltou-se, fazendo cair o cavaleiro, que morreu afogado.
Nunca, na Berbéria, houvera batalha mais sangrenta : cinco a seis mil mouros e sete a oito mil cristãos mortos, com milhares de prisioneiros de várias nacionalidades e de tôdas as categorias e classes, entre êles muitas centenas de mulheres e de crianças. Portugal ficou arruinado. As despesas da expedição e depois o resgate dos prisioneiros levaram as últimas economias. A falta de braços para o amanho das terras era enorme. As consequências políticas da derrota foram, porém, ainda mais terríveis : a perda da independência. Tudo isto torna esta batalha uma das mais notáveis da história universal.
ALCANTARA
Feriu-se esta batalha a 25 de Agôsto de 1580, entre as aguerridas tropas de Filipe II, sob o comando do duque de Alba, um dos mais talentosos generais da época e as milícias de Lisboa, improvisadas semanas antes pelos partidários de D. António Prior do Crato, neto de D. Manuel, como seu rival. Haviam aquelas atravessado a fronteira a 28 de Junho, com uma fôrça de 23.000 homens. Passando por Rio Torto, Chafariz de EI-Rei, Orada, Santa Luzia, S. João (entre Arraiolos e Évora), Amoreira (cerca de Montemor), Landeira, Feiteira e Agualva, atingiram Setúbal a 17 de Julho, após 12 dias de marcha efectiva. Tomada Setúbal e a Tôrre do Outão, conseguiu o exército efectuar a sua junção com a frota do marques de Santa Cruz, que àquele pôrto se dirigira. Trazia esta aprovisionamentos para as tropas, que dêles muito necessitavam ; e assim o duque, tão preocupado até êsse momento com a segurança de sua linha de comunicações com Badajoz, pôde transformar Setúbal em praça-depósito para a nova série de operações que projectava : desembarque a oeste de Cascais e tomada de S. Julião da Barra, para facilitar à esquadra a entrada do Tejo.
A 28 de Junho, embarcava o primeiro escalão de transporte, constituído por 6.000 infantes e a artilharia. Na justa previsão do ataque, mandara D. António para Cascais um destacamento de 4.000 homens, mas a 28 de Julho, vencida a resistência pelo fogo da esquadra, efectua-se o desembarque perto da Guia. No dia imediato rende-se a cidadela. Continua o duque na vila até 6 de Agôsto, para dar tempo à chegada de mais escalões de transporte. A 8 é investida a Tôrre de S. Julião da Barra, que capitula a 11, por traição. A essa altura, D. António, acampado há seis dias em Belém ou Pedrouços, retira sensatamente sôbre Alcântara, preferindo esta posição à da ribeira de Algés.
Chefe experimentado e metódico, avança o duque de Alba com cautela. Estabelecendo seu acampamento nos Jerónimos, bombardeia a tôrre de Belém, cuja rendição lhe importa mais, talvez, pela artilharia pesada que de lá poderá tirar para o ataque da posição portuguesa da ribeira de Alcântara, que pelo receio de ela impedir a passagem da esquadra.
Ganha enfim a Tôrre de Belém, pode pensar na batalha. Começa por reconhecer, no dia 24, a posição portuguesa. Vê que D. António principiou a construir uma bateria, frente ao mar, cerca ao edifício onde até hà pouco era o antigo Quartel de Marinheiros.
Observa que os nossos têm ocupadas casas junto à ponte, mas que o grosso está acampado - formando na praça de armas, como ao tempo se dizia - onde hoje se encontra o palácio das Necessidades. Nota, cremos, que D. António, firmando-se pela esquerda, no Tejo, onde o apoia a esquadra, tem a sua ala e flanco direitos fortalecidos por duas linhas de espaldões (anteparos de fortificações), entre as ravinas da Fonte Santa e dos Sete Moinhos. Repara ainda, de-certo, em que o escarpado da margem direita em frente dessas trincheiras não permite que daí possa desembarcar qualquer ataque.
Dispondo de tropas sólidas, numerosa cavalaria, artilharia e superioridade numérica dupla, não lhe é difícil a solução do problema. Ataque fixante (Próspero Colonna com a infantaria italiana) sôbre a ponte ; manobra com dois grupos de fôrças : um (Sancho de Ávila), com infantaria (3 esquadrões, formações compactas, de piqueiros, e 7 mangas sôltas de arcabuzeiros) ; outro (D. Fernando de Toledo), com tôda a cavalaria. O primeiro destes grupos terá por missão o envolvimento simples do nosso flanco direito, nos Sete Moinhos ; o segundo, seu torneamento, supomos que a montante de Vila Pouca, para os lados de Campolide. Atrás da zona neutra do escarpado, em frente dos entrincheiramentos portugueses, só artilharia.
Passa-se a noite de 24 a 25 em cuidado no campo português, alarmado por falsos prenúncios de ataque, ordenados pelo duque. Ao romper do dia 25 está êste nos Moinhos da Estrangeira, seu local de comando, escolhido em frente do extremo flanco direito de D. António. Falha-lhe, porém, o ataque simultâneo, unitário que preparara. Próspero Colonna avança isolado e é repelio. Pede reforços ao duque... Êste, porém, não se perturba. E a manobra, implacável, prossegue sôbre a nossa direita donde, parece, tropas haviam sido, pouco antes, retiradas para refôrço da ponte, no extremo oposto. Enfraquecido o flanco defensivo português, organizado ao sul da ravina dos Sete Moinhos e desprovido também, cremos, de patrulhas avançadas que prevenissem da ameaça iminente, da infantaria de Sancho de Ávila - é êle julgamos, tomado fácilmente, por quási de surprêsa. E logo essa infantaria, em breve reforçada pela cavalaria de D. Fernando de Toledo, marcha em combate frente ao sul, correndo ao longo da nossa linha de batalha. Formada face a oeste, ccomo poderia esta, em dez ou vinte minutos, improvisar, por uma conversão de noventa graus ao norte, uma nova frente de combate ? Não resistem à prova nóssas milícias ; não resistiria ainda um exército de profissionais, mesmo mais numeroso. Porém já iniciada a debandada, ainda no outro flanco tropas há que, pela coragem fria com que se mantêm, lembram Aljubarrota e anunciam Montes-Claros, vitórias gloriosíssimas que, quando outras não houvera, redimiriam tôdas as derrotas.
ALFARROBEIRA
Batalha, travada em 20 de Maio de 1499 junto ao ribeiro dêste nome, em Alverca do Ribatejo, entre o exército do rei de Portugal D. Afonso V e as fôrças que acompanhavam o ex-regente D. Pedro.
Esta acção militar foi o desenlace da longa e porfiada luta, que por vezes atingiu as proporções duma guerra civil, entre a Casa de Bragança, que procurava firmar o seu poderio, e o prestígio di infante D. Pedro, a quem a regência do reino conferia o domínio político mal aceite pelo ramo bastardo de Aviz.
Esta luta começou após a morte de D. Duarte, quando as côrtes de Tôrres Novas (l 438) decidiram que a regência durante a menoridade de D. Afonso V não fôsse exercida ùnicamente pela rainha viúva, D. Leonor de Aragão. Logo se formaram dois partidos : o que queria que a rainha dispusesse da totalidade dos poderes, conforme o testamento de D. Duarte e o que entendia eleger como regente o ilustre D. Pedro, o mais velho dos infantes de Aviz. Chefiava o partido da rainha o então conde de Barcelos, D. Afonso I, duque de Bragança. A maioria dos procuradores votava por D. Pedro, mas adoptou-se uma solução conciliatória, repartindo-se os poderes do Estado pela rainha, pelo infante D. Pedro e pelo conde de Arraiolos, segundo filho do conde de Barcelos.
A rainha moatrava-se, porém, intransigente, e a luta, do seio do govêrno estendeu-se ao país, dilacerado pelas facções armadas, até que novas Côrtes deram ao infante D. Pedro todos os poderes de Regência, que êle empregou a pacificar o reino. A rainha, que levantara várias vilas em armas, refugiou-se em Castela, enquanto os seus partidários continuavam em Portugal uma luta de intrigas, junto do jovem rei.
Quando D. Afonso V atingiu a idade de 14 anos, o regente, dando-lhe a sua filha D. Isabel como espôsa, quis entregar-lhe ao mesmo tempo as rédeas da governação. Apesar-das instigações dos inimigos de D. Pedro, o rei pediu-lhe ainda «que tornasse com êle a reger e governar seus reinos, assim como dantes, ate êle se sentir em disposição para per si só o poder fazer».
Não tardou, porém, que «na nova e mole idade» de el-rei ganhassem influência as intrigas do duque de Bragança e de seu filho, o conde de Ourém, o qual se tinha tornado o pior inimigo do regente, desde que êste lhe recusara o cargo de Condestável do Reino. A morte da rainha mãe, em Toledo, quando se tratava do seu regresso à côrte portuguesa, foi hàbilmente explorada pelos que queriam perder D. Pedro, a quem apresentavam como um ambicioso ocultando desígnios desleais. Convenceu-se o jovem monarca a exigir do regente a entrega dos negócios públicos.
D. Pedro depõe imediatamente o govêrno do reino nas maõs de el-rei e pouco depois retira-se para Coimbra, desgostoso porque o duque de Bragança, no norte, andava expulsando, de armas na mão, os alcaides e oficiais por êle nomeados.
Com o campo livre, a intriga alastra e domina. Já não é uma rivalidade entre duas casas poderosas, é uma luta declarada, inadiavel, de vida ou de morte. Era preciso colocar D. Pedro na posição de rebelde e desobediente, para o exterminar. Assim, o conde de Ourém inventou uma simulada forma de concórdia entre os rivais, que el-rei enviou ao duque de Coimbra, em termos «de pouca honra e muito abatimento». D. Pedro assinou-a, reconhecendo embora que se tratava dum desafio ao seu pundonor, e sabendo que ao mesmo tempo eram mandadas a tôdas as cidades e vilas cartas de geral percebimento, excepto ao infante e a seu filho, o condestável com o fundamento de que, se êle não assinasse a concórdia, logo iriam sôbre êle.
Falhando êste estratagema, mandou el-rei, finalmente, vir à côrte o duque de Bragança. «E o aviso secreto que o duque houve de seu filho foi que viesse mais em auto de guerra que de paz, porque já tinham comovido el-rei para ir logo sôbre o infante D. Pedro».
Prevenido o infante da vinda do duque de Bragança, que se dispunha a atravessar as suas terras sem o prevenir e em pé de guerra, decidiu impedir-lho por fôrça, «pois vinha em sombra de poderoso e tendo outro caminho por que sem escândalo pudesse ir à côrte», como D. Pedro escreveu ao infante D. Henrique, pedindo-lhe interviesse com seu valor e autoridade. Enquanto D. Henrique lhe prometia ir vê-lo em pessoa. D. Pedro mandava dizer ao Bragança que «queria saber em que maneira o havia de receber, e que se houver de ser como irmão e amigo, como êle deseja, que queria que vos vades chã e pacíficamente, como sempre fôstes, e que dêle e em suas terras recebereis aquela honra, prazer e gasalhado, que sempre recebestes. E que se com êste desacostumado estrondo de armas quiserdes assim passar, que, pela quebra e rompimento em que com êle estais, seria fraqueza e abatimento consentí-lo, saibais que vos há de receber no campo como inimigo.... e neste caso por escusar males e danos deveis tomar outro caminho».
O duque de Bragança avançava, como nunca o fizera, com um verdadeiro exército, de 1.600 cavaleiros e mais de 5.000 infantes, e vendo D. Pedro que o recontro se não podia evitar, foi esperá-lo a Penela, tomando posições. Entretanto, na côrte, o conde de Ourém, temendo que seu pai não levasse a melhor com aquelas fôrças em que não confiava, porquanto muitos fidalgos que com êle vinham não quereriam romper em guerra com o infante D. Pedro, tratou de tirar partido das circunstâncias e obteve de el-rei que ordenasse ao infante se retirasse para Coimbra, ao mesmo tempo que «mandou riscar de seus livros todos os assentamentos e tenças que o Infante dêle tinha».
As hostes de D. Pedro e do duque, acampadas frente a frente, chegaram a estar a meia légua uma da outra. O conde de Avranches procurou convencer o infante a não perder tão azada ocasião e a acometer o campo do duque. Já os corredores do infante tinham examinado o arraial do duque de Bragança, quando êste decidiu sait dissimuladamente pela noite pelo caminho da Serra da Estrêla, que ficava à esquerda. Recolhendo na Covilhã as suas hostes, o duque foi para Santarém, onde estava a côrte, e onde seu filllo lhe preparou um recebimento triunfal. El-rei tomou para si a injúria dêste caso, pois lhe faziam crer que não era abatimento do duque, mas de sua real pessoa.
Ainda o infante D. Henrique tentou intervir a favor do irmão e muitos do conselho o ajudaram, «crendo que clara e descobertamente lhe queria valer». Mas a boa vontade de D. Henrique não perserverou. A quereIa do duque de Bragança, posta em côres feias, foi atendida por el-rei, e logo se mandaram por todo o reino cartas declarando o infante D. Pedro desleal, com perdão para todos os criminosos que contra o Infante quisessem combater.
Nesta grave conjuntura, de nada lhe valeram os esforços da rainha sua fillla, e muito menos o infante D. Henrique, «que nestes dias faleceu ao infante D. Pedro com aquêle verdadeiro amor, favor e ajuda, como a irmão e amigo lhe devia».
D. Pedro reuniu em Coimbra os seus amigos dedicados e mandou recado a el-rei pelo portador da provisao que o declarava fora da lei, dizendo que apelava de el-rei, «gora mal informado contra mim, para êle mesmo de mim se informnr como deve e verdadeiramente». E, considerada a sua desesperada situação, como cavaleiro da Jarreteira decidiu não esperar dentro dos muros da cidade os seus inimigos, antes sair a descoberto, determinando, «quando melhor não pudesse ser, de morrer no campo, requerendo e brandando a el-tei por sua justiça». Conta a Crónica de Rui de Pina, minuciosa e insuspeita em tôda a narração dêstes factos, que o regente e o conde de Abranches juraram entre si morrer um quando o outto morresse, num supremo gesto de cavalaria medieval que logo se cumpriu. «Eu todavia determino morrer e acabar inteiro e não em pedaços», terá dito o infante, «considerados os feios combates que minha vida, honra e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais».
Assim, em 5 de Maio, mandou sair à frente seu filho D. Jaime, a quem êle foi logo juntar -se, levando ao todo mil homens de cavalo e cinco mil de pé, com muita carriagem de bois e bêstas, a caminho de Lisboa.
A Crónica Geral de Espanha, compilada por seu filho D. Pedro, diz que a sua intenção era embarcar ali pata o estrangeiro esperando melhores tempos.
Entretanto, el-rei, de Santarém, manda apressadamente tomar na capital disposições que lhe vedem a entrada. Ao passar pela Batalha, D. Pedro «esteve olhando com muita tristeza a sua sepultuta ainda vazia... sôbre que disse muitas coisas que pareciam já revelações de alma e sentimento da carne que cêdo a havia de povoar».
Chegado a Rio-Maior, teve conselho, sôbre se devia seguir como vinha ou enviar mensageiros a Santarém, e pedir a el-rei «seguridade com que em alguma boa forma fôsse ouvido com justiça acêrca das culpas que lhe falsamente davam». Aconselham-no a que volte para Coimbra, «porque assás tinha cumprido por sua honra chegar ali e estar três dias cêrca de seus contrários». Que não enviasse a el-rei, de cuja pouca idade, enquanto as coisas assim andassem, não devia fiar sua vida, pois tantas vezes lhe tinha faltado. Decide o infante não voltar para trás nem ir contra Santarém, mas avançar para Lisboa, não com esperança de nela entrar, mas para que seus inimigos tenham «possibilidade e tempo de cumprir o que tanto desejam... e esta só mercê peço a Deus que assim seja. E se não vierem a mim, então chegaremos a Ponte de Loures e dali faremos volta por Tôrres Vedras e Óbidos até Coimbra, onde espero a ventura que vier e espero que a rainha minha filha e o infante D. Henrique remedeiem em tanto meus feitos, como a minha honra e estado cumpre».
Procuraria realmente D. Pedro um fim à sua atribulada vida ? Assim parece, pois preferiu voltar as costas ao exército dos seus inimigos pata não acometer el-rei, «de que mostrou alguma prova e experiência o lugar em que ao diante foi morto em que se alojou, onde por três ou quatro dias repousou, podendo-se nêle livremente salvar».
Em 16 de Maio chega a Alcoentre, perseguido por alguns cavaleiros de el-rei que o insultam e que o conde de Avranches acomete, prendendo-os e matando-os. Alguns dêles eram fidalgos a quem o regente protegêra.
Muitos peões do infante, atemorizados pelo rompimento das hostilidades, fugiram do seu arraial. D. Pedro, sabendo que el-rei vinha em sua perseguição, e como o acampamento era ali devasso e sem defesa possível, partiu de Castanheira a caminho de Lisboa, para evitar mais deserções. E antes do meio dia assentou arraiais além de Alverca, no ribeiro de Alfarrobeira que lhe oferecia «disposição para poucos se defenderem de muitos», onde aguardou el-rei, na esperança de que êste, quando o visse, «teria lembrança de quanto serviço lhe fizera» e «porque não acabava de desconfiar do infante D. Henrique e doutros muitos a quem fizera honra e mercê».
No dia vinte de Maio, terça-feira, chega el-tei, com cêrca de trinta mil homens - o maior exército que até então se juntou em Portugal.
Dividido em três hostes, comandava a da vanguarda o conde de Ourém ; outra, o duque de Bragança com a gente que trouxera de Entre Minho e Douro. E logo ficou o regente cercado por todos os lados.
Os trombetas, arautos e reis de armas lançam pregões, mandando que todos os que eram com o infante D. Pedro o deixassem e viessem para el-rei, com ameaça de grandes penas. Nenhum dos do infante o abandonou, antes do arraial de el-rei se foram para o infante alguns cavaleiros.
Como rompeu a peleja, não se sabe ao certo. Parece que el-rei dera ordem de não atacar. Mas que alguns espingardeiros seus começaram por atirar aos do infante de cima de um cabeço e que o Infante mandou dar fogo a algumas bombardas, contra os do cabeço. Então, um tiro de bombarda foi acertar junto da tenda de el-rei, a quem acudiram muitos em grande alvorôço, julgando-o atingido. E logo, sem outra voz de ataque, as suas hostes se lançaram no arraial do infante rompendo-o por muitas partes, enquanto a peonagem procurava na fuga a salvação.
O infante, pelejando rijamente, apenas coberto de uma cota de malha e uma cervilheira foi morto por uma seta que lhe atravessou o coração. «O besteiro que o feriu foi conhecido e havido por assás destro em seu ofício, o qual, com outros de seu mister, segundo fama, foram em especial, pelos inimigos do infante, escolhidos e ordenados contra êle, para mais cêdo abreviarem sua morte».
Ao saber que o seu amigo estava morto, o conde de Avranches, que andava a cavalo batalhando e acudindo ao mais perigoso da contenda, foi-se à sua tenda, «onde sem alguma torvação pediu pão e vinho», retomou suas armas e saíu a pé para o arraial desbaratado. E matando e ferindo como um desesperado, acabou por cair, ferido de morte, bradando : - «Ora fartai, vilanagem». E então um amigo seu lhe cortou a cabeça e a levou a el-rei, pedindo-lhe promoção e honra de cavalaria.
Os fidalgos amigos do infante lutaram até à morte de que só escaparam mui poucos feridos e prisioneiros. O corpo do infante para ali ficou todo o dia, e à noite o meteram numa pobre casa, entre outros cadáveres, «onde ouve três dias sem candeia, nem cobertura, nem oração».
Os inimigos de D. Pedro levaram o seu ódio até ao cadáver do vencido, até seus filhos, presos ou desterrados. Foi preciso que a duqueza de Borgonha, D. Isabel, irmã de D. Pedro, reclamasse o seu corpo insepulto, para que em Portugal o enterrassem.
ALMOSTER
Uma das mais importantes vitórias dos liberais sôbre os absolutistas, a 18 de Fevereiro de 1834. Comandava os primeiros o marechal Saldanha e os segundos, o general Lemos.
Haviam os miguelistas retirado de Lisboa a 24 de Julho de 1833, quando Terceira atravessando o Tejo, entrou e ocupou a cidade. O exército do infante fôra depois batido em frente desta a 10 de Outubto, desalojado da posição que ocupava em Loures, e forçado a acolher-se em Santatém, sempre seguido por Saldanha, que estabeleceu no Cartaxo o seu quartel general. Nesta situação ficaram os contendores todo o resto daquele ano. Com efeito, Mac-Donell, general miguelista, reunia fôrças para voltar sobre Lisboa, e os liberais hesitavam em arriscar as vantagens já alcançadas num ataque às fortes posições ocupadas pelo adversário. Além disso, paralizava os beligerantes a discórdia intestina que lavrava nos dois campos.
Em Janeiro de 34 recomeçaram as operações. Saldanha apoderou-se de Leiria, e derrotou, dias depois, os que tentavam impedir-lhe o regresso ao seu antigo acampamento. Em Fevereiro resolveram os miguelistas dar batalha, premeditando entrar em Lisboa a 22 dêsse mesmo mês, aniversário do desembarque de D. Miguel em 1828. Chamaram do Alentejo o general Lemos com mais de dois mil e quinhentos homens, bem como as fôrças absolutistas que se estendiam do Pôrto até Coimbra, comandadas pelo brigadeiro Rebocho. Na sua diteita, tinha Saldanha a povoação do Vale, o lugar da Atalaia, as pontes de Assêca e do Celeiro, e, a pouca distância, o lugar de Santa Maria de Almoster. A ribeia de Almoster separava os dois exércitos. O chefe constitucional, pressentindo os desígnios do adversário, distribuiu algumas tropas pelas pontes de Assêca, Celeiro e Almoster. Colocou a brigada ligeira de caçadores 2 e 12 entre Almoster e o Casal do Paúl, sob o comando de Vicente de Queiroz, depois conde de Santa Maria ; e concentrou no lugar da Atalaia, entre as pontes do Celeiro e de Almoster, a brigada dos regimentos 1, 3 e 6 de infantaria, sob as ordens do coronel António Pedro de Brito, depois barão de Cacela. No dia 18, às cinco da manhã, uma coluna miguelista rompeu o fogo, emboscada desde a ponte do Celeiro à de Assêca, e as tropas de assalto avançaram, afim de atravessar a ribeira. Eram cinco mil homens, que tinham como objectivo o lugar de Azambujeira, para onde marchava igualmente o general Lemos, com cêrca de 3.000 soldados que trouxera do Alentejo. Os postos avançados de Saldanha retiraram ; e os partidários do absolutismo, alcançada a Azambujeira, preparavam-se para tornear a direita constitucional e marchar sôbre Lisboa. Não conseguiram, porém, o seu intento. Por isso o general Lemos, convencido da impossibilidade de se apossar de Almoster, tentou um avanço pela direita, a que Saldanha opôs os seus lanceiros. O brigadeiro absolutista Santa Clara foi morto ao tentar a ocupação duma colina nas imediações da ponte da Graça ; substituiu-o o francês Bressaget, que também caiu ferido, ao mesmo tempo que os seus batalhões eram repelidos para além da ponte. Neste lance, os miguelistas recorreram à cavalaria ; a carga, porém, não foi feliz, e os esquadrões retrocederam, provocando o pânico entre os seus. Foi o momento de se iniciar a perseguição pelos liberais, que consumou a derrota do inimigo. Perderam os miguelistas neste combate não menos dum milhar de homens, entre mortos, feridos e prisioneiros. Os liberais, cêrca de quatrocentos. Aproveitando-se da noite que caira, acolheu-se o general Lemos a Santarém com as suas tropas desalentadas.
Para comemorar esta vitória, D. Pedro IV mandou repor, no pedestal da estatua equestre de D José, o medalhão com o busto de Pombal, que dali tinha sido arrancado.