Anúncio publicado pelo Soft Click
INTRODUÇÃO
"Nos fins do século XVI a terra passou das mãos da
alta aristocracia à gentry (pequena e media nobreza rural), e das
mãos de uma multidão de arrendatários jornaleiros,
emparedados entre preços e rendas em alta inflacionista e salários
estancados, às dos camponeses proprietários e terratenentes
(yeomen). A terra também passou aos comerciantes, sobretudo aos pequenos
(cujas margens de lucro aumentavam com a inflação) e aos mercadores
mais ricos (que exploravam lucrativos monopólios comerciais). Por
outra parte, também cresceram notavelmente o número e a fortuna
dos juristas de prestígio. Em resumo, o que se produziu foi um deslocamento
maciço das riquezas da Igreja e da Coroa, e das pessoas muito ricas
ou muito pobres, para as mãos da classe média e da classe
média alta".
Lawrence Stone La Revolución Inglesa, in Revoluciones y
Rebeliones de la Europa Moderna - Madri, Alianza Editorial, 1978
ANTECEDENTES SÓCIO-ECONÔMICOS
A expansão do mercado de terras no continente europeu em meados
do século XVI ocorre de forma diferenciada. Enquanto que na França
esse fenômeno foi responsável pelo fortalecimento de relações
feudais, na Inglaterra, ocorreu exatamente o contrário, resultando
no crescimento de características rurais capitalistas que transformaram
a terra numa mercadoria. O aumento dos preços dos derivados agrícolas
e do consumo de matérias-primas e alimentos contribuía para
valorizar o preço da terra. Aproveitando-se dessa situação,
tanto os grandes como os pequenos produtores rurais, tentaram tirar vantagens
ampliando suas posses através dos "cercamentos" (transformação
da posse das terras coletivas, em propriedade privada). O Estado, por sua
vez, para preservar seus interesses, impedia o avanço dos cercamentos
e passava a enfrentar a oposição da "gentry" (nobreza
rural mais progressista) e dos "yeomen" (camada mais rica dos
pequenos e médios proprietários livres).
Nesse período, a Inglaterra passou a ser a segunda potência
marítimo-comercial, ficando atrás apenas da Holanda. Sua indústria
têxtil era a maior da Europa, além de representar mais de 4/5
da produção de todo carvão do continente. Os nobres
que se voltaram para essas atividades se enriqueceram, enquanto que os outros
se empobreceram e perderam suas terras para gentry. Entre os camponeses,
enquanto os yeomen prosperavam, a maioria se empobreceu e submetida ao processo
de cercamentos das propriedades (enclousures), engrossou o contingente de
pobres urbanos. Os cercamentos eram quase sempre apoiados pelo Parlamento,
apesar da omissão da Coroa. Foram praticados por todas as classes
proprietárias, desarticulando a comunidade aldeã e separando
o camponês da terra. Essa realidade fez com que na Inglaterra, os
camponeses precocemente deixassem de ser uma força política.
Nas primeiras décadas do século XVII, enquanto massas de camponeses
estavam em revolta na França, Rússia, Itália e Espanha,
na Inglaterra o campesinato foi uma classe politicamente ausente.
Antecedentes das Revoluções Inglesas - Parte 2
Veja mais sobre a questão política
A QUESTÃO POLÍTICA
"Gostaria de governar a Inglaterra à maneira francesa".
Essa afirmação, feita pelo embaixador espanhol na Inglaterra
no final do século XV, caracteriza certos limites existentes ao poder
absolutista inglês, já que desde a Magna Carta (1215), o Conselho
da Nobreza, (depois o Parlamento) instituição que representa
os cidadãos, passa a ter o poder "de direito". Em contrapartida,
os reis da dinastia Tudor possuíam o poder "de fato" e
pouco convocavam o Parlamento, que composto principalmente por elementos
da burguesia e da gentry, não se opunha ao poder absolutista do rei,
representante dos interesses dessas camadas.
Com a morte da rainha Elisabeth na Inglaterra em 1603 ocorre a passagem
da dinastia Tudor para uma dinastia de linhagem escocesa, a dos Stuart.
Enquanto os Tudor tinham representado um anglicanismo com mais ênfase
ao conteúdo calvinista, favorecendo a burguesia, os Stuart valorizaram
a forma católica do anglicanismo, condizente com os interesses da
aristocracia contra a burguesia. Através do catolicismo ficava mais
fácil justificar o poder absoluto do rei. Com isso, o Parlamento,
majoritariamente burguês, assumiu uma postura de oposição
identificada com os princípios calvinistas, em rejeição
ao anglicanismo.
O primeiro reinado Stuart na Inglaterra, deu-se com Jaime VI, rei da Escócia
que assumiu o poder na Inglaterra com o nome de Jaime I. Esse monarca, admirador
dos reis franceses, queria implantar na Inglaterra um absolutismo de direito,
tentando inclusive acabar com o poder nominal teórico do Parlamento,
e iniciar uma política de perseguição aos puritanos.
Para atingir esse objetivo, o poder real deveria ser considerado de origem
divina, a exemplo dos reis da França, valorizando-se a forma católica
do anglicanismo, identificada com a aristocracia contra a burguesia. De
fato, pelo catolicismo era mais fácil justificar a origem divina
do poder real. Com um governo de caráter pessoal, Jaime I dissolveu
várias vezes o Parlamento e perseguiu vários grupos religiosos
de oposição, inclusive os católicos.
Com a morte de Jaime I em 1625 assumiu o trono seu filho Carlos I e ao
longo de seu reinado as lutas entre o poder real e o Parlamento se radicalizaram.
Em 1628 o Parlamento impôs a Carlos I a "Petição
de Direitos", determinando que impostos, prisões, julgamentos
e convocações do exército somente poderiam ser executados
após apreciação e autorização parlamentar.
Carlos I reagiu, dissolvendo o Parlamento e governando de forma absolutista
apoiando-se em seu "Conselho Privado" durante onze anos. Nesse
tempo o rei, auxiliado por dois enérgicos ministros (o arcebispo
Laud e Thomas Wentworth, conde de Stratford), procurou criar mecanismos
para combater as forças contrárias ao absolutismo monárquico.
Para obter recursos que sustentassem a máquina do Estado e controlar
a vida econômica o rei restabeleceu uma série de medidas de
caráter feudal, como o "Ship Money" (antigo impostos originalmente
pago por cidades portuárias para defesa da marinha), que foi transformado
num tributo nacional. Decisões como essa, provocaram protestos em
toda Grã-Bretanha.
Na Escócia, onde predominava o calvinismo presbiteriano, os Stuart
através do ministro Laud, tentam uniformizar o reino impondo o anglicanismo,
o que provocou uma rebelião dos escoceses que invadiram o norte da
Inglaterra. A primeira reação de Carlos I foi convocar o Parlamento,
que se reuniu de 1640 até 1653, no período conhecido como
"Longo Parlamento". Os deputados calvinistas fizeram o rei decapitar
seus ministros. A partir desse momento o rei não tinha mais direito
a um exército permanente e a política religiosa e tributária
seria conduzida pelo Parlamento, que independentemente da convocação
do rei, se reuniria regularmente a cada três anos.
Em 1641 na Irlanda católica inicia-se um levante separatista contra
o domínio protestante dos ingleses. Na Inglaterra, os puritanos e
o rei anglicano estavam de acordo com a necessidade de um grande exército
para combater os católicos irlandeses, discordando porém,
quanto a liderança do exército, já que os puritanos
não acreditavam na capacidade do rei para chefia do exército.
O rei ordenou então a invasão do Parlamento para efetuar a
prisão de alguns deputados. Nesse mesmo momento começava em
Londres uma revolta armada, onde as milícias passaram para o lado
do Parlamento, iniciando-se assim, a Guerra Civil que corresponde à
primeira fase da Revolução Puritana.
As revoluções burguesas na Inglaterra devem ser analisadas
no processo de início da crise do Antigo Regime europeu. Historicamente,
refletem a necessidade de superação do absolutismo, na medida
em que esse sistema cada vez mais representava um entrave ao capitalismo,
impedindo a livre concorrência e limitando o direito de propriedade.
Foi nessa conjuntura que a burguesia passou a lutar pelo exercício
do poder político como pré-condição para um
mais amplo desenvolvimento do próprio sistema capitalista.
Anúncio publicado pelo Soft Click